Às vésperas da final do CBLOL 2026 2º split, o Mais Esports pôde entrevistar, com exclusividade, Ebony, artista responsável pelo show de abertura da Grande Decisão. A rapper não é diferente do público do evento: é jogadora de LoL há muito tempo e esteve presente em momentos icônicos da história do League of Legends brasileiro.
Queria fazer essa entrevista para tentar entender sua relação com o jogo dentro do âmbito pessoal e artístico também. Para a gente começar, como você começou com o LoL?
Cara, eu sempre joguei LoL, então jogava DDTank, Ragnarok, sabe, essas coisinhas assim. E eu lembro que jogava muito RPG Maker também. Só que esse lance de mundo aberto, eu acho que eu tinha conhecido, sei lá, Sherwood, mas pouquinho.
E sempre gostei de ter algo para jogar, sempre fui muito uma pessoa que gosta (de jogar), se eu não tenho algo para jogar, eu fico meio sem hobby, sabe?
Então, eu lembro que eu vi um anúncio da música Get Jinxed no YouTube, aí eu fiquei: “O que é isso? É uma banda virtual, tipo Vocaloid?”. Aí eu fui clicando em tudo até chegar no LoL e baixei o LoL.
E, cara, joguei LoL, hoje jogo menos do que eu gostaria, mas durante 13 anos. Desde 2013, 2014.
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Foi a primeira vez em que, tipo… Tipo, eu sou de Queimados, na Baixada (Fluminense, Rio de Janeiro), então, ser uma menina igual a mim jogando videogame o dia inteiro era raro, tanto que eu era bem desajustada e zoada.
Eu era de Campo Grande (Zona Oeste, Rio de Janeiro), entendo
Então! Nós eramos isso, nós somos as crianças que não foram brincar na rua, sabe?
Assim, eu até brinquei bastante quando era bem nova, mas foi tendo uma onda também muito grande de violência na Baixada, e cada vez foi ficando mais difícil estar na rua, brincando e tal. Os pais estavam cada vez com mais medo, mais receosos.
Eu acho que isso tudo foi criando o ecossistema perfeito para me tornar uma jogadora assídua de League of Legends. Mas, ainda assim, eu era a única, sabe? Não tinha alguém com quem eu pudesse falar, fazer uma referência, falar: “Nossa, igual!”, entendeu?
Então, quando eu vou pro CBLOL e, pô, todo mundo entende, todo mundo fala a mesma língua, todo mundo está andando para lá e para cá falando termos de LoL, mid, top, gank… Cara, aquilo foi tipo assim: “Meu Deus, eu encontrei a minha tribo! Essa é a minha galera!”, entendeu?
E eles são a minha galera de fato. Eu tenho muitas galeras, cara. As pessoas falam isso para mim, que eu tenho muitas galeras.
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Eu sei, eu não era, então… Mas, por exemplo, eu tenho exceções. Eu joguei também de Braum, eu gosto do Braum, acho ele fofo, no sentido da palavra.
Então, quando chega a Illaoi, negona, ela é quente, ela vem toda tatuada, entendeu? Ela vem assim, feiticeira. Eu amo, e vai tomando! Eu fiquei obcecada por ela, até porque ela é um bonecão, né? É desgraçadinha ela.
Ela acabou se tornando sua favorita, né?
Quando ela lançou, ela acabou comigo, meu coração!
Quando rolou o seu anúncio, a página do CBLOL postou, o Mais Esports publicou, tiveram reações bem diferentes. Teve muita gente muito feliz, teve muita gente citando Pensamentos Intrusivos e grande quantidade de garotos estranhos… Mas eu senti também, Ebony, que rolou uma galera que não conhecia o seu trampo. E aí a minha dúvida é a seguinte: você, como artista, sente que isso é um desafio?
Acho zero que é um desafio, assim. Acho que pode ser, mas não precisa, porque é um lugar de, como eu mesma disse no Twitter, a gente tem um interesse em comum, a gente compartilha isso, sabe?
Eu e cada uma daquelas pessoas compartilhamos o interesse comum que vai fazer todo mundo estar lá, que é LoL.
Então, ser uma artista no meio disso, para mim, é muito maneiro, poder mostrar o que eu preparei, poder mostrar, tipo: “Gente, oi, meu nome é Ebony, eu sou igual a vocês, eu jogo LoL também, eu também sou desajustada”, sabe?
Eu vou mais assim, não acho que é obrigação de uma plateia estar cantando junto, até porque eles não saberiam cantar a música que eu vou apresentar lá. Então, assim… Acredito que vai ser mais um momento contemplativo mesmo, abertura, geral vai sacar junto.
Você já teve receio, no início da sua carreira, de ser ”descoberta” como LoLzeira?
Não, não, tanto que, por exemplo, no meu primeiro feat com a AKA Rasta, acho que foi em 2020, eu cito o Yasuo. Eu faço citação geek e tal, porque, para mim, eu acho que cada vez está ficando… Eu acho que está ficando cada vez mais óbvio, ao longo da cultura pop, que negros são gamers e otakus.
E eu acho que isso é muito óbvio para nós, não brancos, negros e otakus. Só que, para as pessoas que não fazem parte de nenhum tipo de recorte, ou que não têm muito acesso a pretos, otakus ou gamers, elas nunca associam essas três coisas.
Então, tipo, eu gosto muito que está tendo essa onda de, tipo: “Mano, eu ter gastado tempo da minha vida jogando videogame não significa que no meu bairro não tinha tiros”.
Não tira a tua moral de cria, né?
Isso, tira zero. Então, eu nunca tive problema com isso, assim. Tanto que, quando as pessoas começaram a questionar isso, tipo: “Como é que é? A Ebony fala inglês e joga videogame, não sei o quê”, eu fiquei tipo: “Irmão, porque estava tendo tiroteio na minha rua e eu ficava no computador”. Sabe?
Então, tem muito esse lugar também de, acho que até um orgulho de mostrar que a gente é muito mais plural, a gente pode ser muito mais do que uma, duas ou três coisas. A gente não precisa caber na projeção, na percepção de ninguém, sabe?



