Depois de oito anos em desenvolvimento, Songs of Glimmerwick chega como uma das propostas mais charmosas do gênero cozy. Desenvolvido e publicado pela Eastshade Studios, o RPG coloca o jogador em uma universidade de magia onde encantamentos nascem de melodias tocadas na flauta, enquanto aulas, jardinagem, amizades e mistérios ocupam as estações do ano.
Não se trata de mais um simulador de fazenda com capa de fantasia. A Eastshade constrói uma experiência que parece um livro infantil ilustrado ganhar movimento, mas com camadas de mundo, personagens e sistemas que se revelam aos poucos. O resultado é um jogo que convida à calma sem abrir mão de curiosidade, e que transforma até tarefas cotidianas em pequenos momentos de encantamento.
Uma escola onde a magia é melodia
A história começa quando o personagem do jogador chega a Glimmerwick para estudar na Etchery School of Magic and Melody, uma academia famosa por ensinar magia por meio da música. Em vez de varinhas, poções instantâneas ou duelos explosivos, os feitiços dependem de flautas, partituras e prática. A premissa é simples, mas muito eficaz para dar identidade ao mundo.

O passado de Glimmerwick guarda uma maldição chamada Silence, que deixou partes do território em silêncio absoluto. Embora o evento tenha terminado há anos, suas consequências ainda ecoam pela ilha, alimentando lendas, segredos e missões. Essa ambientação evita transformar a trama em apenas um pano de fundo para tarefas de cultivo, já que a investigação dos mistérios da região caminha junto com a rotina acadêmica.
Ao longo de quatro estações, o jogador assiste a aulas, conhece colegas, professores e moradores, participa de festivais e descobre que Glimmerwick é muito mais do que uma escola. Há uma cidade viva, criaturas peculiares, clubes extracurriculares, expedições florestais e histórias que se desdobram de forma gradual. O jogo não busca urgência, e é justamente nessa cadência que encontra parte do seu charme.
Feitiços no ritmo da flauta
A grande sacada de Songs of Glimmerwick está na forma como a magia é executada, pois para aprender um feitiço é preciso praticar uma melodia em um minigame rítmico acessível, no estilo de Guitar Hero, porém bem mais tranquilo. Depois de dominada, a música pode ser usada no mundo para ativar efeitos específicos.

As melodias cortam árvores, quebram pedras, aram a terra, invocam nuvens de chuva, fazem ferramentas trabalharem sozinhas e revelam caminhos escondidos. Também é possível falar com árvores, atrair peixes para as redes e modificar o terreno para resolver obstáculos naturais. A música não é apenas um recurso estético, mas a linguagem central da interação com o mundo.
O cultivo do jardim universitário funciona como uma das atividades mais constantes da experiência. O jogador prepara o solo, planta espécies comuns e arcanas, cuida das culturas, colhe ingredientes e usa tudo isso em poções, missões e comércio. A diferença é que a jardinagem nunca depende apenas de ferramentas manuais, já que os encantamentos musicais transformam o trabalho em algo mais criativo e menos repetitivo.

Além das aulas e do jardim, há pesca, culinária, exploração, coleta, bandas estudantis, corridas de mariposas e encontros com criaturas mágicas. A progressão permite escolher habilidades que facilitam o comércio, a jardinagem ou a exploração, incluindo talentos divertidos como conversar com sapos. Nada disso exige reflexos intensos, mas tudo contribui para que a ilha pareça habitada e cheia de possibilidades.
Um cozy game que respeita o jogador
Diferente de outros jogos do gênero, em que o relógio corre contra o jogador e obriga a planejar cada minuto, Songs of Glimmerwick congela o tempo antes de eventos importantes, como aulas e apresentações. Não há punição por dormir tarde nem pressão para chegar a algum lugar, o que torna a rotina acadêmica prazerosa em vez de ansiosa.

O jogo troca confrontos por exploração, resolução de problemas, diálogos, poções e magia. As missões costumam oferecer pistas suficientes para serem compreendidas sem entregar todas as respostas, criando uma sensação agradável de descoberta. Ainda assim, alguns objetivos podem permanecer parados no diário até que novas melodias, áreas ou conhecimentos sejam desbloqueados.
Praticamente todos os personagens principais e secundários têm vozes, e as interpretações ajudam a dar personalidade até para moradores que poderiam passar despercebidos. Os diálogos têm humor, warmth e uma escrita cuidadosa, reforçando a impressão de que Glimmerwick é uma comunidade de verdade, e não apenas um conjunto de NPCs esperando por missões.
Um livro ilustrado que canta
A direção de arte é provavelmente o aspecto mais memorável do jogo. Songs of Glimmerwick abandona o pixel art típico de muitos cozy games e aposta em cenários desenhados à mão, com iluminação atmosférica, paleta suave e uma estética que lembra livros ilustrados e animações de inspiração céltica. O resultado é um mundo bonito sem parecer excessivamente saturado, com florestas, praias, vilarejos e áreas mágicas que ganham personalidade própria.

A trilha sonora acompanha essa beleza com arranjos folclóricos, cordas suaves, madeiras e timbres mágicos que se adaptam ao ambiente e às estações. A música de Phoenix Glendinning dá vida à ilha, e até atividades simples, como pescar, recebem melodias próprias. Quando a noite chega, a trilha recua para dar espaço a grilos, riachos e sons da natureza, mantendo a imersão sem se tornar cansativa.
Songs of Glimmerwick é um RPG de escola bruxa que acerta ao transformar música em mecânica, mundo e emoção. A Eastshade Studios entrega uma aventura cozy com direção de arte deslumbrante, trilha sonora encantadora, personagens carismáticos e uma abordagem gentil ao tempo que faz diferença real na experiência.

O jogo pode não agradar quem procura sistemas profundos, desafios intensos ou progressão rápida, mas para quem deseja um refúgio mágico, cheio de melodias, mistérios e pequenas histórias, é uma escolha excelente. Songs of Glimmerwick não tenta ser um Stardew Valley ou um Harry Potter, e é justamente por encontrar sua própria voz que se torna uma das surpresas mais gostosas do ano.
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Nota final: 5/5
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