Uma substância psicodélica encontrada naturalmente nas secreções de um sapo do deserto está despertando o interesse de pesquisadores que buscam novos tratamentos para a depressão. Um ensaio clínico publicado em outubro de 2026 apontou resultados promissores com uma versão farmacêutica do composto, administrada por meio de um spray nasal.
A pesquisa investigou a mebufotenina, também conhecida como 5-MeO-DMT, em adultos com depressão resistente a tratamentos convencionais. Os resultados indicaram uma redução significativa dos sintomas após uma única dose, com efeitos observados durante várias semanas.
Apesar dos resultados positivos, a substância continua em desenvolvimento clínico e ainda precisa passar por novas avaliações.
Como funciona o composto psicodélico do veneno de sapo?
A mebufotenina é um composto psicodélico encontrado nas secreções do sapo do deserto de Sonora, conhecido cientificamente como Incilius alvarius. A substância também ocorre naturalmente em algumas espécies de plantas.
O composto atua em receptores de serotonina no cérebro, envolvidos na regulação do humor e de outros processos neurológicos.
Para investigar seu potencial terapêutico, os pesquisadores utilizaram uma formulação farmacêutica chamada BPL-003. O medicamento experimental contém mebufotenina benzoato e foi desenvolvido para administração intranasal.
É importante destacar que o tratamento estudado não consiste na aplicação direta do veneno do animal. Trata-se de uma formulação desenvolvida para uso clínico controlado.
Estudo identificou redução dos sintomas de depressão
O ensaio clínico de fase 2b contou com 193 adultos com depressão maior moderada a grave que não haviam respondido adequadamente a pelo menos dois tratamentos antidepressivos.
Realizada em 38 centros da Austrália, da Europa e dos Estados Unidos, a pesquisa foi conduzida com distribuição aleatória dos participantes e método duplo-cego, no qual pacientes e pesquisadores não sabiam qual dose havia sido administrada.
Os participantes receberam uma única dose intranasal de 8 miligramas ou 12 miligramas de mebufotenina benzoato. Um terceiro grupo recebeu uma dose comparadora muito baixa, de 0,3 miligrama. Todos também receberam apoio psicológico.
Após 29 dias, o grupo que recebeu 12 miligramas apresentou uma redução média de 11,1 pontos na escala utilizada para avaliar a gravidade da depressão. No grupo comparador, a queda foi de 5,5 pontos.
A dose de 8 miligramas também apresentou resultados positivos, com redução média de 12,5 pontos na mesma escala.
Os pesquisadores observaram diferenças favoráveis às doses terapêuticas durante o acompanhamento, que avaliou os participantes por até oito semanas.
Efeitos rápidos e possibilidade de alta em poucas horas
Um dos aspectos que chamaram a atenção foi o tempo relativamente curto de recuperação após a administração.
Segundo os resultados, 85% dos participantes que receberam 8 miligramas e 78% daqueles tratados com 12 miligramas foram considerados aptos para receber alta em até duas horas após a dose.
A característica pode ser relevante para o desenvolvimento de tratamentos psicodélicos, já que algumas outras substâncias dessa classe exigem períodos mais prolongados de acompanhamento clínico.
A pesquisa também registrou eventos adversos. Eles foram relatados por 76% dos participantes no grupo de 8 miligramas, 85% no grupo de 12 miligramas e 73% no grupo comparador. No conjunto, 99,7% desses eventos foram classificados como leves ou moderados.
Esses dados ajudam a avaliar a tolerabilidade do composto, mas não eliminam a necessidade de estudos mais amplos sobre sua segurança.
Tratamento ainda precisa de novos estudos
Embora os resultados sejam promissores, o ensaio clínico não significa que a mebufotenina já seja uma opção de tratamento aprovada para a depressão.
A pesquisa avaliou um número limitado de participantes e acompanhou seus resultados por algumas semanas. Estudos adicionais serão importantes para confirmar a eficácia, identificar possíveis riscos e entender por quanto tempo os benefícios podem ser mantidos.
A substância também não deve ser confundida com uma alternativa de automedicação. Os resultados foram obtidos com uma formulação farmacêutica experimental, doses controladas e acompanhamento profissional.
A investigação faz parte de uma área crescente de pesquisas sobre compostos psicodélicos e saúde mental. O objetivo é encontrar novas alternativas para pessoas que não obtêm melhora suficiente com os tratamentos disponíveis.
Por enquanto, a mebufotenina representa uma possibilidade científica em desenvolvimento, e não uma solução definitiva para a depressão resistente.
Fontes
JAMA, ensaio clínico sobre mebufotenina e depressão resistente
ClinicalTrials.gov, registro oficial do estudo NCT05870540
AtaiBeckley, informações oficiais sobre o desenvolvimento clínico do BPL-003
Artigo científico sobre a farmacologia e o potencial terapêutico do 5-MeO-DMT




