O prazer de ler uma boa HQ. Folhear as páginas e ir acompanhando os quadrinhos, lendo os balões, interpretando a arte que está desenhada. Distintos sentimentos e reflexões podem vir dessa leitura. Mas e o processo por trás da criação dessas HQs? O que se passa na vida de um quadrinista enquanto ele está criando?

É o que o leitor vai ficar sabendo em Diário de Quadrinista – Vol. 1 (Dom Mordaz, 2026). Braian Malfatti reuniu ali seus diários desenhados ao longo de 2025. O projeto em si começou como uma newsletter no Substack, chamada justamente de Diário de Quadrinista. Braian reflete sobre os desafios de viver de quadrinhos no Brasil, equilibrando produção artística com trabalhos freelance, relacionamentos e as típicas angústias da vida adulta. Diário de Quadrinista – Vol. 1 foi disponibilizada previamente na Feira Mixuruca no dia 31/10, em Porto Alegre. Seu lançamento oficial será hoje, dia 04/11, na 13ª edição do Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (FIQ BH).

Braian começou essa newsletter apropriadamente no dia 31 de janeiro, Dia do Quadrinho Nacional. A explicação para ela vem nas palavras do próprio Braian:
“Meu nome é Braian (droga é o braian), sou quadrinista e designer, autor de O Vigilante do Centro Histórico e Éramos dois pela manhã. Eu divido a casa e a vida com Ana e Marshall.
Em 2025 eu comecei esse exercício de, todos os dias (exceto nos finais de semana por que né), fazer uma síntese gráfica do meu dia. Não no sentido de resumir tudo o que aconteceu em cada dia, mas de desenhar um acontecimento específico, quase como se estivesse definindo qual seria a thumbnail daquele dia na galeria de todos os dias do ano. Um exercício de memória, de registro, de desenho, de linguagem, mas principalmente, de olhar com mais carinho para o cotidiano. Muitas coisas acontecem no microuniverso de um dia, da mais triste à mais engraçada, passando por outras que nos deixam puto, que nos fazem amar, que nos fazem pensar, que não nos deixam pensar. Tá tudo ali, a gente só foi sendo acostumado a não enxergá-las. Então foi isso que eu fiz. Arranjei um tempo de cada dia pra parar e enxergar através do desenho.
E aí surgiu o Diário de quadrinista.
Porque é o meu diário.
E eu sou quadrinista.”

A entediante rotina de um quadrinista sem talento
Antes de adotar o Substack, Braian publicou na plataforma Fliptru uma série de tirinhas chamada “A entediante rotina de um quadrinista sem talento”. São tirinhas que foram publicadas semanalmente, de janeiro a março de 2022, sobre a rotina de um quadrinista.

Análise dos elementos que constituem a obra
Roteiro: Dada a estrutura de diário, cada página é uma observação isolada de um momento naquele dia. A conexão entre eles se dá no entendimento da rotina de vida do autor-protagonista.
Arte: Diferentemente do traço habitual de Braian em suas HQs, aqui ele utiliza um traço muito mais pessoal, com aspecto “de rascunho”.


Autor

Braian Malfatti. É quadrinista, escritor e designer de Campo Bom (RS). Fundador do selo independente Dom Mordaz, juntamente com Djeison Hoerlle. Colaborou com diversas histórias curtas nacionais e internacionais.
Prêmio
– Prêmio SamPaulo/Troféu Sofrenildo de Melhor Arte por O Vigilante do Centro Histórico (2026).
Outras obras do autor
– Hangwater, TX (2026).
– Éramos dois pela manhã (2026).
– Em três dias trago a pessoa amada (2025).
– Céu Rosa-Poeira (2025).
– O Colecionador (2025).
– Pied Paper (2025).
– Orphanmaker (2025).
– O Vigilante do Centro Histórico – Volume 1 (2024).
– 40 minutos de Nova York (Casa das Histórias, 2024).
– O Manuscrito (Casa das Histórias, 2024).
– YokaiSushi (Revista Pé de Cabra, 2024).
– State of Kane 3 (2024).
– Septagram (2023).
– A luz no meio da noite (2023).
– Lendas (Tabula Magazine Apresenta: Espada e Feitiçaria, 2022).
Também publicou quadrinhos e ilustrações nas revistas Almanaque Skriptzine: Horror Cósmico, Revista Diário Macabro, Revista Pé de Cabra e plataforma Fliptru. Além disso, é letrista do quadrinho digital Pinballer, e colabora com tirinhas na página de quadrinhos digitais Soap Box Comics.
Dom Mordaz

O Dom Mordaz é um selo de quadrinhos independente criado em 2024 em Campo Bom/RS por Djeison Hoerlle e Braian Malfatti.
Demais obras publicadas:
– Dissabores (2024).
– O Vigilante do Centro Histórico – Volume 1 (2024).
– Café Delgado e Outros Etarismos (2025).
– O Colecionador (2025).
– Nada Floresceu em 99 (2026).
– Peregrinos de Palha e Pena (2026).
– Éramos dois pela manhã (2026).
– A Natureza das Coisas (2026).
– Qualquer Silva (2026).
– Praia das Lamentações (2026).
– Mordazine (2026).
Reflexões finais
O processo criativo de elaboração de uma HQ pode ser árduo, como sabemos pelos relatos de muitos autores. Mas é raro o leitor ter a oportunidade de saber como realmente é o dia a dia de um quadrinista. Através do Diário do Quadrinista, Braian Malfatti abriu uma janela para que o leitor pudesse observar seu cotidiano.
Muito mais do que um simples relato de seu cotidiano, o autor faz uso de humor autodepreciativo e eventual melancolia em um ponto focal por dia. O senso de humor do autor-protagonista casa perfeitamente bem com o traço.
A própria escolha do formato para a publicação deste volume 1 foi genial. O leitor tem em mãos um diário de formato 9 x 14 cm, o mesmo formato dos cadernos que o autor de fato utiliza. Incluindo um elástico para prender as páginas. A reprodução fidedigna vai ao ponto de o autor manter as indicações de término dos cadernos ao longo do diário de quadrinista. Bem como cada caderno apresentar diferentes “papéis”: liso, quadriculado, pontilhado. E ainda manter alguns rascunhos inclusos.
A obra traz uma importante visão de contraponto à existência de um “astro”, artistas que parecem inalcançáveis. “Diário” mostra o cotidiano de um quadrinista que enfrenta desafios mundanos com o qual todos os leitores vão poder se identificar. A leitura é leve, indo de momentos de gargalhar a momentos de refletir, e o traço dá a sensação de estarmos acompanhando o quadrinista de perto.
Ao fim, vê-se que a vida de Braian é no mínimo tão interessante quanto os personagens que ele cria.
P.S./Obs.: Seguindo a sugestão de Braian Malfatti em seu Diário de Quadrinista, esta matéria foi parcialmente escrita ouvindo Music in Twelve Parts.
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