A Editora Intrínseca traz para os leitores brasileiros dois novos títulos do mestre do terror contemporâneo Grady Hendrix, que chegam às livrarias em fevereiro de 2026 para consolidar ainda mais a presença do autor no mercado nacional. Com “O Grupo de Apoio para Garotas Finais” e “Vendemos Nossas Almas“, o escritor norte-americano reafirma sua habilidade única de combinar horror visceral, nostalgia cultural e crítica social afiada, com as características que o tornaram um dos nomes mais relevantes da literatura de terror moderna.

O estilo de Hendrix é inconfundível e representa uma abordagem renovada ao terror, longe dos clichês previsíveis do gênero. Ele constrói narrativas que mergulham em períodos específicos da cultura pop americana, recriando com precisão atmosferas nostálgicas que servem como pano de fundo para histórias que vão muito além do susto superficial. Sua escrita mistura elementos do horror clássico com humor ácido, criando o que alguns críticos chamam de “terrir“, a arte de fazer o leitor rir e ter medo ao mesmo tempo. Essa combinação aparentemente contraditória funciona porque Hendrix ama genuinamente o horror pulp e não satiriza o gênero em si, mas usa suas convenções para explorar questões sociais profundas.

A crítica social é parte fundamental da obra de Hendrix e nunca aparece de forma panfletária ou forçada como, por exemplo, em “Manual das Donas de Casa Caçadoras de Vampiros“, em que aborda misoginia e racismo. Com adaptação para Amazon Prime, “O Exorcismo da Minha Melhor Amiga“, explora o zelo religioso, o distanciamento dos pais, o abuso de substâncias, a pressão social na escola e o bullying. Ambos lançados pela Intrínseca, seus livros carregam esses elementos capazes de humanizar os personagens e criar pontes emocionais com os leitores, tornando a experiência de leitura mais imersiva e significativa.

Em “O Grupo de Apoio para Garotas Finais” o autor apresenta uma de suas propostas mais interessantes e metacríticas de até o momento, com a proposta de reimaginar o conceito da “garota final”, figura icônica dos filmes slasher das décadas de 1980 e 1990, trazendo para um contexto de realidade em que essas sobreviventes precisam lidar com traumas reais. A história acompanha Lynnette Tarkington, uma mulher que sobreviveu a um massacre há vinte e dois anos e que agora participa de um grupo de apoio com outras sobreviventes, ao lado de Julia, uma ativista em cadeira de rodas que enfrentou um assassino mascarado chamado Fantasma, Marilyn, uma socialite que viu irmãos e melhor amiga morrerem nas mãos de canibais, Dani, uma mulher lésbica perseguida pelo próprio irmão, Heather, a única sobrevivente do “Rei dos Sonhos”, e Adrienne, militante pela causa das sobreviventes.

O grupo se reúne semanalmente com a Dra. Carol, uma terapeuta que as ajuda a processar seus traumas e a navegar por uma cultura que romantiza e explora suas experiências, porém quando uma delas falta a uma sessão, Lynnette percebe que alguém conhece os segredos mais sombrios compartilhados no grupo e está determinado a caçá-las novamente, uma por uma. A premissa força os leitores a questionar em quem confiar quando o pesadelo recomeça e transforma o conceito de “garota final” em uma reflexão sobre como a sociedade consome e espetaculariza o trauma alheio. O livro imagina um mundo, entre 1970 e 1990, em que essas sobreviventes foram transformadas em celebridades cujas histórias viraram filmes blockbusters e cujos traumas foram explorados repetidamente pela indústria do entretenimento.
A obra ganhou ainda mais destaque quando foi anunciada sua adaptação como série, com produção de Charlize Theron ao lado de Andy e Barbara Muschietti, conhecidos por trabalhos no gênero de terror. O projeto reforça a relevância da narrativa de Hendrix e sua capacidade de criar histórias que dialogam tanto com o público literário quanto com a indústria audiovisual. A tradução brasileira ficou a cargo de Flora Pinheiro, trazendo para o português as nuances do texto original.

Já em “Vendemos Nossas Almas” os leitores são transportados para um território diferente, mas igualmente rico em referências culturais e crítica social. A história se passa nos anos 1990 e acompanha Kris Pulaski, ex-guitarrista de uma banda de heavy metal que esteve prestes a conquistar o sucesso com que sempre sonhou. A realidade, porém, é que Kris vive uma vida de frustração, morando na casa da mãe e trabalhando em um Best Western, após o vocalista Terry ter abandonado o grupo e alcançado fama estrondosa em carreira solo. A primeira cena do livro ilustra perfeitamente a queda da protagonista, em que um homem nu com uma fronha na cabeça entra em seu escritório, urina em sua mesa, solta um pum e vai embora, enquanto seu irmão policial pergunta não se ela está bem, mas por que ela não limpou a bagunça.

Tudo muda quando Terry anuncia sua turnê de despedida e uma série de assassinatos brutais vira sua vida de cabeça para baixo, com ela suspeitando que Terry pode estar envolvido em coisas muito mais macabras do que apenas o fim da banda e decide pegar a estrada para reunir os antigos integrantes e confrontar o homem que arruinou sua vida. A jornada de Kris atravessa uma América mais sombria que qualquer terra fantástica, em que ela descobre que as forças ocultas que compraram sua alma não são diabos caricatos com tridentes, mas a conspiração por trás das conspiração, os homens nas sombras que controlam nossas vidas. O livro explora como o mundo se transformou em um vasto cercado onde a luta, o suor e o medo dos noventa e nove por cento fornecem sustento para o um por cento que nos mantém adormecidos.

Hendrix utiliza o heavy metal como metáfora para explorar temas como lealdade, traição, o poder transcendente da música e as escolhas que fazemos sobre quem consideramos família. A narrativa funciona como uma balada furiosa sobre nunca desistir, mesmo diante de probabilidades esmagadoras, e questiona o que realmente não está à venda em um país obcecado por vigilância, viciado em remédios e mergulhado na paranoia. Para os fãs de bandas como Black Sabbath e Metallica, o livro desperta aquela parte que vibra e ruge com os acordes pesados, mostrando como a música pode curar e dar forças para continuar lutando. Kris Pulaski é uma protagonista que nunca fugiu de uma briga na vida e sua jornada é épica tanto no sentido literal quanto metafórico, com reviravoltas chocantes e o característico humor ácido de Hendrix.

Enquanto “O Grupo de Apoio para Garotas Finais” dialoga diretamente com os slashers clássicos e a cultura de filmes de horror dos anos oitenta e noventa, “Vendemos Nossas Almas” mergulha no universo do heavy metal e das teorias conspiratórias, criando uma atmosfera densa e opressiva que se alimenta dos medos contemporâneos sobre controle social e manipulação em massa. Ambos os livros compartilham a habilidade de Hendrix de criar personagens femininas complexas e resilientes que enfrentam não apenas ameaças sobrenaturais, mas também estruturas sociais opressivas e traumas profundos.

A chegada simultânea de “O Grupo de Apoio para Garotas Finais” e “Vendemos Nossas Almas” em fevereiro de 2026 representa uma oportunidade única para os leitores brasileiros mergulharem em dois aspectos distintos do universo criativo de Hendrix, conhecendo sua capacidade de abordar diversidade temática e diferentes subgêneros do terror sem perder seu estilo autoral. Os livros funcionam como exemplos perfeitos de como o terror contemporâneo pode ser inteligente, emocionalmente ressonante e socialmente relevante sem sacrificar os elementos viscerais que definem o gênero. Para quem busca histórias que vão além do susto superficial e oferecem reflexões sobre trauma, sociedade e cultura, esses lançamentos são leituras essenciais que prometem tirar o sono dos leitores pelos motivos certos.



