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Startup russa diz ter criado pombos ciborgues com chips neurais e acende alerta sobre vigilância e ética

Uma startup de neurotecnologia sediada em Moscou está chamando atenção com uma afirmação no mínimo polêmica: a empresa Neiry diz ter implantado eletrodos no cérebro de pombos para guiar o voo das aves à distância, como se fossem drones vivos, ou pombos ciborgues. O projeto, chamado PJN 1, teria passado por testes iniciais de voo e retorno ao ponto de origem, segundo relatos publicados no fim de 2025 e reforçados por novas matérias nas últimas semanas.

A promessa é sedutora para quem pensa em missões longas e discretas. O problema é que, além das questões éticas óbvias, as informações disponíveis até agora vêm principalmente de declarações da própria empresa e de reportagens baseadas nelas, com pouca verificação independente dos resultados e do bem estar dos animais.

Como funcionaria o “drone biológico” da Neiry

De acordo com as descrições publicadas, o sistema combina cirurgia com um conjunto de eletrônicos leves. Microeletrodos são colocados em áreas específicas do cérebro do pombo e conectados a um mini estimulador preso à cabeça. A ave também carrega uma espécie de mochila com componentes de navegação e comunicação, além de GPS e câmera para registrar imagens. Algumas reportagens citam até uso de painéis solares para alimentar o equipamento.

O controle seria feito por estímulos elétricos que “induzem” o animal a virar à esquerda ou à direita, com o operador ajustando a rota em tempo real. A Neiry também alega que não seria necessário um longo treinamento, porque o direcionamento viria da estimulação neural.

Por que usar pombos em vez de drones

A justificativa da empresa é que aves têm vantagens naturais em certos cenários. Elas não precisam pousar para trocar bateria, conseguem lidar com vento e obstáculos, passam menos despercebidas em áreas urbanas e podem percorrer grandes distâncias num dia. A Neiry cita rotas longas e operação prolongada como parte do apelo da ideia.

No discurso oficial, o uso seria “civil”, com aplicações como inspeção de infraestrutura, monitoramento ambiental e apoio a busca e resgate. Ainda assim, a própria natureza do projeto deixa claro o potencial de vigilância, especialmente em um contexto em que drones e contramedidas estão no centro de debates de segurança.

O ponto mais delicado é o “duplo uso”

A tecnologia de interface cérebro máquina não é nova, mas aplicá la em animais para navegação controlada entra na categoria de biohíbridos com alto potencial de duplo uso. Em outras palavras, algo que pode ser vendido como ferramenta útil para serviços e indústria, mas também pode ser adaptado para espionagem e operações de monitoramento.

É por isso que o assunto costuma atrair críticas mesmo quando a demonstração técnica impressiona. Pesquisadores da área de biohíbridos vêm apontando a necessidade de governança e critérios claros para reduzir danos, aumentar transparência e lidar com riscos sociais, de segurança e de bem estar animal.

Não é a primeira vez que “animais ciborgues” aparecem na ciência

Antes de pombos, a discussão ganhou força com “insetos ciborgues”, que usam estímulos e sensores para orientar movimento em ambientes complexos. Há pesquisa acadêmica recente explorando controle e locomoção em insetos para cenários como desastres, sempre acompanhada de debates sobre limites éticos e supervisão.

O que muda aqui é a escala do impacto e a sensibilidade do tema. Pássaros são mais visíveis ao público, carregam câmeras com facilidade e operam em espaços onde privacidade e vigilância já são assuntos quentes.

O que ainda falta para separar fato de propaganda

Mesmo com vídeos e relatos na imprensa, ainda é cedo para tratar a ideia como uma capacidade comprovada e pronta para uso amplo. Parte das matérias ressalta que não há validação científica independente publicada com detalhes técnicos suficientes para confirmar desempenho, repetibilidade, taxa real de sobrevivência, efeitos colaterais e condições de bem estar dos animais.

Se a tecnologia existe do jeito que é descrita, ela abre uma discussão inevitável: até onde vai a inovação quando o “hardware” é um ser vivo.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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