O terror é um gênero que muitas vezes pode ser usado como escapismo. Mas e quando o terror se encontra no cotidiano? Ecos (Vol.1): Em Carne Viva (Independente, 2025) mostra para o leitor que o terror pode estar mais próximo do que se imagina.

O cenário sociopolítico brasileiro atual, em grande parte moldado por transições e rupturas ocorridas na última década com a ascensão da extrema-direita, mostra seu impacto. Assim como o passado sombrio do período ditatorial. E a própria constituição do Estado brasileiro, impactando pesadamente na vida de populações nativas americanas. Todos esses temas fazem parte desta coletânea.
Ecos (Vol.1): Em Carne Viva é uma coletânea de terror psicológico tendo como base o cotidiano brasileiro e o terror que pode ser encontrado no dia a dia. Ecos terá volumes temáticos com coletâneas de histórias em quadrinhos curtas e fechadas ambientadas no Brasil. Este primeiro volume aborda o gênero horror psicológico. O volume 2, que deve sair ainda este ano, terá como foco a ficção-científica. Abaixo uma breve descrição e análise de cada um dos contos deste volume 1, evitando dar spoiler para aqueles que ainda não leram.
Me mandem os nomes
Eduardo é descoberto como estuprador e seu fim vai impulsionar que o devido fim alcance outros estupradores.

É uma adaptação do curta-metragem “Send me their names” (Direção de Marcelo Gafanha e João Jesus, 2021).

O que pulsa dentro
Paulo é um indivíduo que, como fica evidente na correlação gráfica com sua autorreflexão, é o típico homem que se considera um “cidadão de bem”. Os abusos sofridos durante a infância surgem em flashbacks, aparentemente para justificar o protagonista. Sendo de certa forma uma continuação do conto anterior, Ísis aparece novamente para trazer o devido castigo para o protagonista.

Depois de um ano eu não vindo
Um homem é torturado por dois indivíduos usando máscaras de cão e porco, e outro em traje militar, em um looping infinito.
O terror aqui vem do período em que o Brasil esteve sob uma Ditadura Militar e torturas como as apresentadas aqui ocorriam rotineiramente. Esse terror foi brilhantemente colocado de forma irônica na música Acorda Amor (Chico Buarque, 1974). O personagem principal canta esta música, também como forma de ironia e resistência. O título da história, “Depois de um ano eu não vindo”, também é parte da letra.
Sem mocinho pra me pegar
Um indivíduo está sentado em frente à TV, alheio ao desesperador noticiário, enquanto olha seu celular.
Uma única página, nove quadros… contundente como um soco no estômago. Duas coisas causam revolta neste conto: a situação desesperadora dos indivíduos Parakanã retratados no noticiário e a total apatia e desprezo por parte dos dois personagens que estão em frente à TV. O terror psicológico aqui transborda a ficção ao retratar a situação real dos indivíduos nativos americanos vivendo em territórios indígenas no Brasil. Em contraponto com a apatia, e até mesmo desprezo, por uma grande parcela da população brasileira.
O título do conto é uma parte da letra da música “Brincar de Índio” (Xuxa, 1988).
Fraqueza
Daniel reflete sobre suas escolhas enquanto aguarda o disparo de um marido traído.

A banalidade, e o patético, da situação são ainda realçados pelo pensamento do protagonista na música “Ladrão de Mulher” (Chrystian & Ralf, 1993).
Análise dos elementos que constituem a obra
Roteiro: O roteiro habilmente transita entre o cotidiano de vidas facilmente reconhecíveis, claramente advindas de debates contemporâneos na sociedade brasileira, e o terror psicológico subjacente a essas existências.
Ilustração: A ilustração mostra em seus traços a dureza de uma realidade crua, aliada a uma colorização em geral sombria, mas com tons intensos combinando com o impacto buscado pelos traços.
Autor

Rafael Barbosa é Professor do IFSul-rio-grandense, nascido em Bagé, RS, e radicado em Pelotas há 36 anos. Ecos – Vol.1: Em carne viva é seu primeiro projeto autoral em quadrinhos.
Demais obras:
– O Lobo da lua Alta (Chiado Books, 2017).
– Inko #7: Ruínas Submersas (Inko Criativo, 2022).
– Inko #8: Churrasco na Laje (Inko Criativo, 2022).
– Inko #9: Aeroporto Alienígena (Inko Criativo, 2023).
– Inko #10: Beco Medieval (Inko Criativo, 2023).
– Inko #11: Canteiro de Obra (Inko Criativo, 2024)
– Inko #12: Favela do Futuro (Inko Criativo, 2024).
– Inko #13: Floresta Primitiva (Inko Criativo, 2025).
– Terror Universal – Drácula, Frankenstein, Lobisomen e Outros Monstros (Tábula Editora, 2024).
– Contos Insólitos – SciFi & Terror (Tábula Editora, 2025).
– Loja de horrores (Tábula Editora, 2025).
– Lambari #2 (Independente, 2025)
– Lambari #3 (Independente, 2025)
– Almanaque Gibi de Terror #3 (CAQ, 2025).
– Gods Untold #3: South America (Paganini Stories, há ser lançada em 2026).
Demais artistas:
Maria Rickes: cores em “Me mandem os Nomes” e “O que pulsa dentro”.
John de Macedo: roteiro em “Depois de um ano eu não vindo”.
Jack Azulita: cores em “Sem mocinho pra me pegar” e “Fraqueza”.
Monique Portella: cores em “Depois de um ano eu não vindo”.
Reflexões finais
O terror pode se expressar de várias formas, mas talvez uma de suas formas mais agoniantes seja o terror psicológico encontrado no cotidiano. A coletânea criada por Rafael Barbosa escancara os monstros do cotidiano, ambientando suas histórias no Brasil.
Violência, abusos, impunidade, indiferença, apatia… todos elementos do cotidiano, que podem muito bem estar próximos do leitor. E que aqui, ao abrir a obra para leitura, fica sem a alternativa de olhar para o lado, ou trocar de canal. O autor confronta o leitor com o terror psicológico do dia a dia de um país que dado sua escala continental, e um cultura de massa que preza pelo individualismo ao invés do coletivismo, e permite que cada um de nós se saia com a expressão “não é comigo”.
A coletânea alterna o tom entre histórias que trazem um desfecho catártico para vítimas de indivíduos que na vida real muitas vezes acabam saindo impunes, com histórias onde as vítimas são castigadas sem uma esperança de fim, sejam elas no passado ditatorial ou o presente das populações nativas americanas, foco de promessas eleitoreiras que também remetem ao passado em sua ausência de real intuito humanitário.
Quando o leitor terminar de ler Ecos (Vol.1): Em Carne Viva, verá que o verdadeiro terror não termina quando se fecha a HQ.
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