Enquanto milhões de soldados enfrentavam os campos de batalha durante a Primeira Guerra Mundial, outra guerra era travada longe das trincheiras. Dentro de fábricas de munições espalhadas pelo Reino Unido, cerca de um milhão de mulheres assumiram a produção de projéteis, explosivos e armamentos essenciais para manter o conflito. O trabalho era considerado vital para a vitória, mas tinha um custo altíssimo. Muitas dessas operárias adoeceram gravemente, sofreram acidentes fatais e acabaram praticamente apagadas da memória histórica.
Conhecidas como “canárias”, essas trabalhadoras receberam esse apelido porque o contato constante com o trinitrotolueno, mais conhecido como TNT, fazia a pele adquirir um tom amarelado intenso. Em alguns casos, os cabelos também mudavam de cor por causa dos produtos químicos. Mesmo após sucessivas lavagens, a coloração permanecia por semanas ou meses, tornando impossível esconder os efeitos da contaminação.

Além da aparência alterada, a exposição ao TNT provocava dores no peito, fortes dores de cabeça, vômitos, problemas respiratórios, lesões na pele e danos severos ao fígado, aos rins e ao coração. Centenas de mulheres morreram em consequência do envenenamento, enquanto muitas outras carregaram sequelas pelo resto da vida.
Apesar dos riscos conhecidos, o trabalho nas fábricas era uma das poucas oportunidades de emprego disponíveis para mulheres de baixa renda durante o conflito. As áreas onde o TNT era manipulado eram consideradas as mais perigosas e, muitas vezes, eram ocupadas por trabalhadoras que aceitavam o risco simplesmente por necessidade financeira.
Os perigos não se limitavam à intoxicação. Explosões eram relativamente frequentes nas fábricas de munições. Algumas causavam ferimentos graves e amputações, enquanto outras destruíam instalações inteiras. Um dos acidentes mais marcantes aconteceu em Silvertown, em Londres, em 1917, quando uma enorme explosão matou dezenas de pessoas, deixou centenas de feridos e devastou parte da região.
Mesmo diante de tantos acidentes, o governo britânico procurava minimizar os riscos perante a opinião pública. Propagandas oficiais afirmavam que o amarelamento da pele era apenas temporário e não oferecia qualquer ameaça à saúde. A estratégia ajudava a manter o recrutamento de novas operárias e evitava que a população tivesse dimensão das condições enfrentadas dentro das fábricas.
Um dos maiores centros de produção foi construído em Gretna, na fronteira entre Escócia e Inglaterra. O complexo industrial ocupava cerca de 14 quilômetros de extensão e possuía ferrovia própria, alojamentos, igrejas, restaurantes e áreas de convivência para milhares de trabalhadores. Apesar da estrutura impressionante, muitas mulheres viviam em barracões de madeira extremamente simples, dividindo dormitórios após jornadas que chegavam a 12 horas diárias.
As condições de trabalho permaneciam precárias. Equipamentos de proteção eram limitados e não incluíam itens básicos, como máscaras e luvas. Além do TNT, as funcionárias inalavam vapores de ácido nítrico e outros compostos tóxicos que provocavam problemas respiratórios, queimaduras e até perda dos dentes. Nem mesmo o atendimento médico disponível conseguia tratar de forma eficaz os efeitos da exposição contínua aos produtos químicos.
Quando o rei George V e a rainha Mary visitaram a fábrica, recursos apareceram rapidamente para fornecer novos uniformes às operárias e transmitir uma imagem mais positiva do local. Fora dessas ocasiões, porém, o cotidiano seguia marcado pelo frio intenso, pela lama, pelas longas jornadas e pelo constante risco de acidentes.
Embora autoridades da época reconhecessem que a produção de munições foi decisiva para o esforço de guerra, a contribuição dessas mulheres acabou sendo esquecida por décadas. A maioria dos memoriais erguidos após o conflito homenageou apenas os soldados mortos em combate, deixando de lado milhares de trabalhadoras que também perderam a vida servindo ao país.
Somente nos últimos anos museus, pesquisadores e historiadores passaram a resgatar a trajetória das chamadas canárias. Hoje, suas histórias ajudam a lembrar que a Primeira Guerra Mundial não foi vencida apenas nas trincheiras, mas também dentro de fábricas onde mulheres enfrentaram diariamente substâncias tóxicas, explosões e condições extremas para manter o abastecimento das forças aliadas.
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