A Indovers Studio encontrou uma maneira curiosamente específica de transformar tarefas domésticas em videogame. Em VHS World ’89, o jogador precisa reorganizar uma locadora de vídeos tomada por 3.360 fitas VHS. Já You Can Sort It! troca as fitas por 5.760 latas de refrigerante espalhadas pelo chão de uma pequena loja.
Em ambos, a proposta é simples, quase hipnótica e deliberadamente distante da urgência tradicional dos jogos. Não há inimigos, cronômetros ou punições. Existe apenas a satisfação de pegar um item, entender onde ele deve ficar e observar a bagunça desaparecer aos poucos.
Os dois títulos pertencem ao crescente grupo de experiências cozy que transformam organização, limpeza e gerenciamento em atividades relaxantes. A diferença é que a Indovers Studio não tenta esconder a repetição. Pelo contrário, VHS World ’89 e You Can Sort It! fazem dela o centro da experiência.
O resultado pode ser terapêutico para quem gosta de arrumar tudo por categoria, mas também exige uma dose considerável de paciência. A pergunta não é se existe conteúdo suficiente, mas se o jogador consegue encontrar prazer em realizar a mesma tarefa centenas ou milhares de vezes.
A paz de colocar tudo no lugar
O gênero de simulação casual vem explorando atividades cada vez mais comuns. Em vez de administrar cidades, conduzir caminhões ou cuidar de fazendas, alguns jogos recentes apostam em tarefas pequenas, reconhecíveis e quase meditativas. Organizar uma prateleira, limpar uma casa ou rearranjar produtos pode parecer pouco interessante no papel, mas funciona porque oferece uma recompensa visual muito clara. O espaço começa caótico e termina sob controle.

VHS World ’89 entende bem esse princípio. A loja inicialmente parece ter sido atingida por um desastre envolvendo fitas, caixas e estantes vazias. Aos poucos, porém, o cenário ganha forma. Cada cassete recuperada representa um pequeno avanço, enquanto as prateleiras preenchidas passam a funcionar como uma espécie de mapa do progresso. A atividade não depende de uma grande narrativa ou de objetivos secundários. O próprio ato de reconstruir a locadora é o objetivo.
You Can Sort It! segue a mesma lógica, mas introduz uma camada adicional de identificação. As latas precisam ser separadas por sabor e também organizadas por marca em cada fileira. Isso torna o processo mais complexo do que simplesmente reconhecer uma cor ou procurar uma categoria. Uma prateleira pode parecer correta à primeira vista, mas continuar marcada como errada caso misture marcas diferentes. É uma regra simples, embora suficiente para criar momentos de dúvida e pequenas correções de rota.

Os dois jogos também se destacam por respeitar o ritmo do jogador. Não existe contagem regressiva, condição de derrota ou pressão para terminar rapidamente. É possível organizar por alguns minutos, sair e retornar depois, ou permanecer por horas no mesmo ambiente. Essa liberdade é parte essencial da proposta, principalmente para quem procura uma experiência mais tranquila entre jogos maiores e mais intensos.
Fitas, latas e uma boa dose de nostalgia
VHS World ’89 é o jogo mais forte dos dois em termos de identidade. Ambientado em uma locadora de 1989, ele aproveita um imaginário muito específico, formado por corredores estreitos, capas coloridas, fitas magnéticas e aquela atmosfera de comércio noturno que marcou uma época anterior ao streaming. As 3.360 fitas são distribuídas por 14 gêneros, incluindo ação, comédia, terror, ficção científica, drama, infantil, romance, thriller, faroeste, fantasia, aventura, esportes, crime e anime.

A graça não está apenas em descobrir a categoria de cada fita, mas também em observar suas capas e títulos. O jogo usa paródias de filmes conhecidos, criando pequenas brincadeiras visuais para quem gosta de cinema. Algumas referências são fáceis de reconhecer, enquanto outras dependem de uma rápida leitura ou de uma associação mais criativa. O trabalho de separar os produtos acaba funcionando também como uma espécie de caça a referências culturais.
O título, entretanto, não entrega uma campanha tradicional. Não há personagens desenvolvidos, diálogos extensos ou uma história sobre a locadora e seus proprietários. A ambientação existe para dar personalidade à tarefa, e não para conduzir uma aventura. Para alguns jogadores, isso pode parecer uma oportunidade perdida. Para outros, é justamente a simplicidade que torna a experiência agradável.

You Can Sort It! é ainda mais direto. O cenário de uma loja de refrigerantes é colorido e simpático, mas não possui a mesma força nostálgica de VHS World ’89. Por outro lado, a quantidade de variações cria uma atividade mais técnica. São 20 marcas fictícias e 24 sabores, totalizando 480 tipos diferentes de latas. A combinação entre sabor e marca transforma cada item em uma pequena peça de um quebra-cabeça logístico.
A proposta também ganha força no modo cooperativo online para até quatro jogadores. Sozinho, o título pode funcionar como uma atividade contemplativa. Com amigos, a organização se torna uma mistura de colaboração, confusão e discussões inevitáveis sobre qual lata pertence a determinada fileira. A própria desenvolvedora brinca com a possibilidade de o cooperativo acelerar o trabalho e, ao mesmo tempo, testar a amizade dos participantes.
Controles simples, repetição calculada
Os controles de VHS World ’89 e You Can Sort It! são intuitivos. O jogador explora o ambiente em primeira pessoa, pega as fitas ou latas, examina os rótulos e transporta os objetos até as prateleiras correspondentes. A simplicidade é importante porque permite compreender a proposta imediatamente. Não há sistemas complexos para aprender antes de começar a organizar.

VHS World ’89 coloca o jogador diante de um volume expressivo de itens. No começo, carregar poucas fitas por vez torna o deslocamento mais demorado. Conforme os pontos são acumulados, habilidades podem ser desbloqueadas para aumentar a quantidade de objetos transportados, facilitar a localização de uma fita específica, melhorar a movimentação e automatizar parte do empilhamento. Essas melhorias ajudam a reduzir o desgaste, embora também diminuam um pouco o envolvimento manual nas etapas finais.
Essa progressão é uma boa solução para impedir que o jogo permaneça exatamente igual do começo ao fim. Ainda assim, ela demora a se apresentar de maneira clara. O jogador pode passar bastante tempo apenas recolhendo e guardando fitas sem perceber imediatamente que existe uma árvore de habilidades capaz de alterar o ritmo da experiência. Uma introdução mais direta teria ajudado a apresentar melhor esse sistema.

Outro detalhe importante é que as categorias nem sempre são tão objetivas quanto parecem. Os gêneros possuem identificação visual e cores próprias, mas certas obras podem se encaixar em mais de uma classificação. O título faz com que o jogador observe melhor os espaços e entenda que algumas fitas possuem áreas específicas dentro de uma categoria. Quando essa lógica fica clara, a tarefa se torna mais interessante, pois deixa de ser apenas uma corrida até a prateleira da cor correspondente.
You Can Sort It! apresenta uma dificuldade diferente. O jogador não precisa apenas reconhecer o sabor, mas também prestar atenção à marca. Uma lata de cola pode estar no setor correto e ainda assim estar na fileira errada. O sistema de sinalização ajuda a identificar os erros, mas também transforma a organização em um processo de conferência constante.

A possibilidade de jogar com até três amigos é a principal vantagem mecânica de You Can Sort It! Com mais pessoas, o estoque desaparece com maior velocidade e a loja ganha vida. Porém, o cooperativo não altera a essência repetitiva do jogo. Ele apenas distribui a tarefa entre os participantes e transforma o trabalho silencioso em uma atividade social. Para quem prefere jogar sozinho, VHS World ’89 parece mais naturalmente ajustado. Para grupos que gostam de experiências colaborativas e descontraídas, You Can Sort It! tem uma proposta mais atraente.
Uma estética simples com personalidade
Visualmente, os dois jogos apostam em uma direção de arte low-poly e estilizada. Os ambientes não impressionam pela complexidade técnica, mas cumprem bem a função de criar espaços legíveis. É fácil distinguir as seções, localizar as prateleiras e entender visualmente quando uma área está incompleta.

VHS World ’89 aproveita melhor a direção de arte porque o tema já oferece uma identidade forte. As capas das fitas são o destaque, com designs que fazem referência a filmes reconhecíveis sem depender diretamente de suas marcas. O cuidado com esses detalhes dá motivo para o jogador observar cada item antes de simplesmente colocá-lo na estante.
You Can Sort It! aposta no design das latas. As embalagens fictícias são variadas e ajudam a diferenciar marcas e sabores. Esse trabalho é fundamental, já que o jogador passa boa parte do tempo olhando para rótulos pequenos e tentando identificar diferenças. A apresentação funciona, embora o ambiente da loja seja mais básico e conte com menos elementos memoráveis.

A trilha sonora segue a mesma filosofia de conforto. Em VHS World ’89, o clima associado aos anos 1980 aparece nas músicas e nos sons ambientes da locadora. É uma escolha coerente com a proposta, ainda que possa se tornar repetitiva para quem não tem afinidade com o estilo. A melhor forma de jogar, especialmente em sessões longas, talvez seja deixar uma playlist própria tocando ao fundo.
You Can Sort It! parece menos dependente de uma época específica e mais interessado em manter uma atmosfera leve durante a organização. Em ambos os casos, o áudio funciona como acompanhamento, não como protagonista. A experiência fica confortável justamente porque o jogo não tenta ocupar todos os espaços com estímulos constantes.
Dois jogos para organizar sem pressa
VHS World ’89 e You Can Sort It! são experiências de nicho, mas sabem exatamente para quem foram feitas. Quem procura ação, narrativa elaborada ou desafios variados provavelmente encontrará pouco aqui. Já quem gosta de jogos aconchegantes, tarefas repetitivas e progresso visual poderá passar várias horas satisfeito em meio a fitas e refrigerantes.

Entre os dois, VHS World ’89 é o mais marcante. A ambientação da locadora de 1989 dá personalidade ao sistema de organização, e as capas paródicas acrescentam uma camada de curiosidade que combina bem com o trabalho de recolher cada fita. A estrutura continua repetitiva, mas o tema cria um motivo mais forte para continuar.
You Can Sort It! tem uma proposta igualmente competente, com a vantagem do cooperativo para até quatro jogadores. A combinação entre sabor e marca cria um desafio um pouco mais elaborado, enquanto a possibilidade de compartilhar a bagunça com amigos oferece momentos naturalmente engraçados. Em contrapartida, sua ambientação parece menos memorável quando comparada ao charme retrô de VHS World ’89.

A Indovers Studio não tenta transformar organização em algo grandioso. Seus jogos funcionam porque aceitam a própria simplicidade e oferecem um espaço sem pressão para quem deseja desligar a mente por algum tempo. Ainda existe uma diferença entre ser relaxante e ser apenas repetitivo, e os dois títulos caminham constantemente sobre essa linha. Mesmo assim, quando a proposta encaixa, devolver cada item ao seu lugar produz uma satisfação genuína.
No fim, VHS World ’89 e You Can Sort It! não são jogos para todos, mas podem ser exatamente o que alguns jogadores procuram depois de uma sessão intensa de RPG, terror ou ação. Um oferece a nostalgia das locadoras e o prazer de reconstruir uma loja de vídeo. O outro transforma uma pilha impossível de refrigerantes em uma brincadeira cooperativa. Em ambos, a recompensa não está em vencer, mas em olhar para o chão vazio e pensar que, finalmente, tudo está no lugar.
##
Nota final: 5/5
Acesse o site oficial do jogo.
Veja mais reviews de games.




