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Crítica | O 11º Tripulante | Editora JBC

Publicado pela primeira vez em 1975, O 11º Tripulante! (Juuichinin Iru!) narra a história de 10 cadetes de diferentes espécies da galáxia que estão prestando sua prova final para se tornarem alunos da Universidade Espacial. O teste é ocupar uma nave espacial desativada e sobreviver o maior tempo possível com os recursos da própria nave. Contudo, quando as escotilhas se fecham, os 10 cadetes percebem que há um 11º tripulante. Daí em diante, eles precisam não apenas sobreviver na nave à deriva, mas também descobrir quem é o passageiro e quais seus planos para os demais tripulantes.

Conhecido como um clássico da ficção científica, O 11º Tripulante! é uma obra de Moto Hagio, considerada uma pioneira dos mangás shoujo. No Brasil o quadrinho foi publicado pela JBC em um volume único contendo tanto a primeira história, “O 11º Tripulante”, quanto uma continuação intitulada “Horizonte do Leste, Eternidade do Oeste”. A edição brasileira conta com algumas páginas coloridas e também um minipôster. No que diz respeito aos aspectos editoriais, não podemos negar que se trata de uma bonita edição.

imagem: ilustração de 11º tripulante

Imagem: Reprodução/Moto Hagio

A trama espacial de Moto Hagio é recheada de suspense e mistério — afinal, existe uma pessoa extra dentro da nave espacial e há toda uma movimentação das personagens para descobrir quem é essa 11ª pessoa e por que ela se infiltrou na prova da Universidade Espacial —, mas talvez os aspectos mais interessantes do mangá sejam as discussões sobre gênero, classe e humanidade.

Dentro do espaço da nave à deriva são apresentadas 11 personagens de diferentes planetas, por vezes situados em galáxias distintas, com histórias e culturas que diferem umas das outras. Existem planetas mais centrais e planetas mais periféricos, e fica nítido muito rapidamente que o olhar dos habitantes dos planetas centrais para os habitantes de planetas periféricos está carregado de pressupostos e até mesmo de preconceito.

Enquanto as personagens tentam descobrir quem é a pessoa extra, ao mesmo tempo em que resolvem as questões que surgem dentro da nave, são formadas relações de maior ou menor proximidade, de amizade e de inimizade, que às vezes culminam em discussões sobre algum tema específico. Quando essas discussões são feitas, as personagens vão dizendo como certa questão é vista ou como lidam com ela em seu planeta e nessas horas são tratados o modo de organização social dessas sociedades, as questões econômicas, a equidade de gênero etc. Há uma tentativa notável de tratar de diversidade cultural nessa história, é um aspecto bastante interessante da construção de mundo feita pela Hagio.

imagem: cena do mangá o 11º tripulante

Imagem: Reprodução/Moto Hagio/JBC

Entretanto, de todos os temas que perpassam O 11º Tripulante!, o que é debatido de forma mais potente é a questão de gênero. A princípio, talvez pareça que a Moto Hagio trata nessa história de papéis de gênero, mas, na verdade, ela dá um passo além.

Em O 11º Tripulante! há várias personagens interessantes, mas por hora vamos tratar de apenas duas: Frolbericheri Frol e Tadathos Lane. O primeiro, um exemplar de garoto feminino; o segundo, o protagonista do mangá. Frol e Tada desenvolvem uma relação bastante interessante ao longo da narrativa, mas antes de falar dela, o mais importante é investigar de que modo ela se constrói.

Desde o primeiro momento em que aparece, Frol é comparado a uma mulher. Afirmam que ele é uma mulher, depois perguntam se ele é uma mulher, frequentemente dizem a ele que ele parece uma mulher. Frol responde a todos esses comentários com uma fúria imensa, afirmando categoricamente que ele é um homem. Independentemente de seu rosto delicado, seu corpo magro e esguio, sua pouca massa muscular e até seu aspecto “frágil”, ele continua se ofendendo cada vez que o comparam a uma garota.

Em contrapartida, no início da história Frol faz vários comentários sobre o corpo de Tadathos em comparação ao dele: a altura, os músculos, como se tentasse entender por que o corpo de Tada é tão mais masculino do que o dele. Em meio a toda essa interação, as duas personagens criam uma amizade que vai se aprofundando lentamente.

imagem: cena do mangá o 11º tripulante

Imagem: Reprodução/Moto Hagio/JBC

Em meio aos acontecimentos do enredo principal — a descoberta de um vírus que pode levar todos os tripulantes à morte, por exemplo — vêm à tona o fato de que Frol não é um homem, mas tampouco é uma mulher. Nesse momento, ele explica seu desejo de virar homem e dentre todas as coisas que ele diz sobre a dinâmica de homens e mulheres em seu planeta, uma delas soa como uma pedra arremessada contra vidro: “Mulheres são bonitas em aparência… mas é só isso.”

No planeta de Frol, mulheres são destinadas ao casamento, ao cuidado dos filhos e à beleza… e é só isso. O respeito, as bajulações, as tomadas de decisões são destinados apenas aos homens. Soa bastante familiar… E quando o mangá saiu, com certeza soava bem familiar para um Japão pós-guerra que no passado havia investido muito em propaganda para disseminar por todo país os papéis destinados a homens e mulheres na criação de uma grande nação.

Entretanto, o caso específico de Frol coloca outra camada na discussão. Frol não é uma mulher indignada com o lugar das mulheres em seu planeta, ele é uma existência que teme se tornar mulher, que rejeita sua possível transformação em mulher. Ele está numa posição de algo que antecede o próprio gênero, alguém que por um período de sua vida está livre da generificação e que sabendo que em algum momento essa generificação vai acontecer, opta pelo destino que lhe parece mais valoroso e admirável. Frol não é nem mesmo um intersexo, ele é a ausência física do próprio gênero, mas que almeja o masculino.

Ao se definir como homem, Frol acaba sendo tratado como homem, pelo menos em alguns momentos. E é nessa parte que a relação dele e de Tada se torna interessante. Os dois acabam desenvolvendo um relacionamento amoroso e, embora inicialmente o romance comece com Frol decidindo se tornar mulher, o envolvimento continua mesmo após ele mudar de ideia. O noivado dos dois não é o foco da narrativa, mas não se pode negar que Hagio fez uma escolha corajosa ao criar não apenas o relacionamento, mas toda própria existência de Frol.

imagem: cena do mangá o 11º tripulante

Imagem: Reprodução/Moto Hagio/JBC

Por esse motivo, não é exagero dizer que O 11º Tripulante! se tornou um clássico não apenas pela trama central de ficção científica, mas também pelos temperos adicionados por Moto Hagio.

Já a continuação do mangá, Horizonte do Leste, Eternidade do Oeste, trata-se de uma trama política envolvendo um conflito entre dois planetas irmãos. Com direito a golpe de estado, fake news, manipulação da opinião pública, conspiração e interferência de grandes corporações, o mangá desvela por meio de uma história de aventura a como os jogos de poder e a interferência de grandes potências econômicas podem fabricar narrativas, aumentando pequenos conflitos à máxima potência e desgraçando a vida de muita gente no processo.

Assim, O 11º Tripulante! se mostra não só uma instigante trama de ficção científica e mistério, mas também um terreno fértil para se inserir discussões sobre diferentes aspectos sociais como classe, gênero, diferenças culturais etc. As narrativas contidas no volume único brasileiro entregam tramas que instigam o leitor, sem deixar de tocar em temas relevantes tanto no período em que o mangá foi publicado inicialmente quanto na contemporaneidade. Desse modo, percebe-se que Moto Hagio se tornou um importante nome do mangá não somente por “fazer algo primeiro”, mas pela ousadia e delicadeza de usar suas histórias para ir além do entretenimento e ter discussões que, mesmo hoje, nem todos os autores estão dispostos a tocar.


Galeria de fotos

Confira no álbum abaixo alguns registros da edição nacional de O 11º Tripulante! pela Editora JBC:

 

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Essa resenha foi feita com base na edição cedida como material de divulgação para a imprensa pela editora JBC, que disponibilizou o volume ao JBox.


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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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