A iQIYI, uma das maiores plataformas de streaming da China e frequentemente chamada de “Netflix chinesa”, anunciou uma mudança radical no seu modelo de conteúdo. A empresa acredita que, em até cinco anos, a maioria dos filmes e séries da plataforma será criada por inteligência artificial, em uma estratégia que já vem gerando críticas e preocupação entre fãs e profissionais do audiovisual.
A revelação foi feita pelo CEO Gong Yu durante o evento anual de apresentação de conteúdos da empresa. Segundo ele, a iQIYI pretende transformar seu aplicativo e site em algo mais próximo de uma rede social de vídeos dominada por produções feitas por IA, usando tecnologias desenvolvidas internamente.
Como base dessa virada, a plataforma lançou o Nadou Pro, um pacote de ferramentas de IA capaz de automatizar praticamente todo o processo criativo. O sistema promete cuidar de roteiro, storyboard, animação e geração de vídeo, reduzindo drasticamente custos e tempo de produção.
A empresa afirmou que o Nadou Pro já foi usado em testes internos e que 16 filmes produzidos com a ferramenta serão lançados na plataforma em breve. Além disso, a iQIYI planeja estrear ainda neste verão um longa totalmente gerado por inteligência artificial, com ambição de alcançar sucesso comercial real, e não apenas chamar atenção como experimento tecnológico.
O movimento acontece em um momento delicado para a indústria global do entretenimento. O uso crescente de vídeos gerados por IA, muitas vezes apelidados de “AI slop”, levantou debates sobre qualidade, originalidade e saturação de conteúdo. O termo é usado para descrever produções criadas em grande volume, com pouco cuidado artístico ou narrativo, focadas apenas em engajamento rápido.
Para tentar atrair criadores humanos, a iQIYI anunciou que vai pagar uma fatia extra de 20% da receita a cineastas que utilizarem o Nadou Pro em seus projetos. A ideia é incentivar o uso da tecnologia e acelerar a adoção do novo modelo híbrido entre humanos e máquinas.
Executivos da plataforma também veem uma oportunidade estratégica após o fechamento recente de ferramentas populares de geração de vídeo por IA, como o app Sora, da OpenAI. Para Gong Yu, esse seria um momento raro de virada tecnológica, capaz de redefinir o futuro do streaming e da produção audiovisual.
Ainda assim, a decisão levanta dúvidas importantes. Críticos apontam que vídeos gerados por IA têm dificuldade em sustentar narrativas longas e emocionalmente envolventes. Em Hollywood e em mercados asiáticos, sindicatos e artistas já expressam receio de substituição em massa e perda de identidade criativa.
Com essa aposta agressiva, a iQIYI se coloca na linha de frente de um debate que pode definir o futuro do entretenimento digital. Resta saber se o público vai aceitar um catálogo dominado por produções artificiais ou se a enxurrada de “conteúdo sintético” vai reforçar a rejeição ao chamado AI slop e valorizar ainda mais obras criadas por pessoas reais.
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