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boss rush brasileiro que transforma cada vitória em um novo desafio

Existe uma pureza particular nos jogos centrados em batalhas contra chefes, sem longas campanhas, dezenas de missões secundárias ou mapas gigantescos para preencher, com a proposta se resumindo em observar, aprender e executar. Gurei, estreia brasileira do Lobo Sagaz Studio, entende muito bem essa lógica e constrói sua experiência ao redor de confrontos intensos, escolhas estratégicas e uma dificuldade que cresce de acordo com o caminho escolhido pelo jogador.

Publicado pela Astrolabe Games, Gurei chega combinando ação em 2D, exploração enxuta e combates contra entidades inspiradas na mitologia japonesa. O resultado é uma experiência curta, exigente e bastante rejogável, especialmente para quem aprecia jogos como Hollow Knight, Blasphemous, Nine Sols e os clássicos da série Mega Man.

Gurei não tenta esconder suas intenções e desde o início deixa claro que a aventura quer colocar o jogador diante de inimigos difíceis, fazer com que cada derrota ensine alguma coisa e transformar a vitória em uma ferramenta para enfrentar o próximo desafio. A fórmula funciona porque o estúdio brasileiro não trata o boss rush como uma simples sequência de arenas. Aqui, a ordem das batalhas muda a própria natureza da jornada.

Uma jornada entre dois mundos

A protagonista é Rei, um espírito humano despertado em um castelo arruinado e surreal, localizado entre o mundo dos vivos e o reino dos espíritos. Sua missão é derrotar os Kami, entidades místicas ligadas às forças da natureza, absorver seus poderes e avançar cada vez mais em direção ao desconhecido.

Gurei

Gurei não apresenta a história de maneira convencional e prefere espalhar suas informações pelo cenário, pelas aparições de personagens e pelos comentários dos próprios Kami derrotados. Depois de cada vitória, a entidade vencida passa a acompanhar Rei, oferecendo observações sobre o mundo, sobre os próximos oponentes e sobre a própria situação da protagonista.

Esse recurso é interessante porque transforma cada chefe em algo mais do que uma barreira, pois os Kami possuem personalidades distintas e continuam presentes depois da derrota. Alguns ajudam com comentários úteis, enquanto outros parecem mais interessados em provocar Rei ou fazer observações completamente inúteis. Essa convivência cria um humor estranho e discreto, que combina com o clima de fábula sombria do jogo.

Gurei

A narrativa, porém, não é o ponto mais desenvolvido da experiência, mesmo que o universo desperte curiosidade, os personagens nem sempre recebem espaço suficiente para aprofundar suas histórias. As aparições de criaturas inspiradas no folclore japonês, os objetivos opcionais e os segredos espalhados pelo castelo ajudam a dar personalidade ao cenário, embora muitas dessas interações sejam breves.

Você decide o caminho

A melhor ideia de Gurei está em seu sistema de dificuldade dinâmica. Rei pode escolher livremente a ordem em que enfrentará os Kami, mas essa liberdade não significa que todos os inimigos permanecerão iguais. Cada vitória torna os oponentes restantes mais fortes, acrescentando novos ataques, padrões mais complexos e comportamentos mais agressivos.

Gurei

Na prática, um Kami enfrentado no começo da jornada pode ser relativamente simples, apresentando poucos golpes e movimentos fáceis de compreender. O mesmo inimigo, deixado para uma das últimas batalhas, pode ganhar novas armas, ataques adicionais e uma defesa muito mais resistente. O jogo transforma a escolha da rota em uma decisão de risco e recompensa.

Essa estrutura lembra Mega Man pela possibilidade de escolher a ordem dos chefes e obter novas habilidades depois de cada vitória. A diferença é que Gurei não depende exatamente de fraquezas elementais. O jogador precisa avaliar quais habilidades são mais úteis para seu estilo de jogo e quais oponentes podem se tornar um pesadelo se forem deixados para depois.

Gurei

O resultado é uma espécie de quebra cabeça estratégico. Não basta descobrir como derrotar cada Kami. Também é necessário compreender em que momento enfrentá lo. Um adversário confortável no primeiro nível pode se tornar uma ameaça quase intransponível quando aparece fortalecido. Ao mesmo tempo, encarar cedo demais um inimigo difícil pode impedir que Rei obtenha habilidades importantes para o restante da jornada.

As partidas são curtas, geralmente com duração entre vinte e trinta minutos quando o jogador consegue avançar até o fim. Como as tentativas são rápidas, a necessidade de recomeçar não chega a ser tão desgastante quanto em experiências mais longas. A campanha curta, nesse caso, é uma escolha de design coerente com a proposta, embora possa afastar quem espera uma aventura mais extensa.

Gurei

A influência do chanbara, o cinema japonês de samurais, aparece imediatamente na apresentação de Gurei. A protagonista empunha uma espada, os confrontos são individuais e existe uma preocupação constante com distância, tempo de reação e leitura corporal dos inimigos.

A direção de arte desenhada à mão reforça essa sensação. O castelo é dominado por tons de preto, branco e cinza, enquanto as cores mais intensas ficam reservadas aos Kami, aos golpes especiais e aos elementos importantes da ação. Esse contraste faz com que cada chefe tenha uma presença visual muito forte e ajuda o jogador a identificar ameaças em meio ao cenário.

Gurei

O visual combina o imaginário dos filmes de samurai com uma atmosfera de mangá em movimento. Há também ecos de produções como Samurai Jack, principalmente na maneira como os personagens coloridos se destacam em cenários monocromáticos. É uma identidade artística forte para um primeiro jogo e um dos elementos que mais ajudam Gurei a se destacar no mercado independente.

Cada vitória um desafio

Rei começa com um conjunto de movimentos simples, com sua espada podendo ser utilizada em diferentes direções, incluindo golpes para cima e para baixo, enquanto o salto, a esquiva e os pulos nas paredes garantem a mobilidade necessária para atravessar o castelo e enfrentar os Kami.

Gurei

O sistema de vidas limitadas aumenta a pressão, pois ao derrotar os chefes, Rei pode receber vidas adicionais, mas perder todas encerra a tentativa e exige o reinício da jornada. A ausência de uma progressão tradicional entre as partidas pode parecer severa, mas combina com a proposta de Gurei em que a evolução principal não está na personagem, e sim no conhecimento adquirido pelo jogador.

O combate de Gurei é simples de entender, mas difícil de dominar, com golpes que possuem impacto satisfatório, os inimigos apresentam sinais visuais relativamente claros e os ataques dos Kami podem ser aprendidos com observação e repetição. A sensação de vitória é legítima porque raramente depende de sorte.

Gurei

A movimentação de Rei é fluida durante boa parte do tempo, mas a esquiva pode causar frustração. Existe um pequeno atraso entre o comando e a execução do movimento, algo que exige adaptação e pode resultar em algumas mortes aparentemente injustas até que o jogador compreenda o ritmo correto.

Também há uma limitação na distribuição dos comandos. Como Rei recebe muitas habilidades ao longo da campanha, algumas acabam compartilhando botões ou exigem diferentes tempos de carregamento. Isso pode atrapalhar a reação durante momentos de grande pressão, especialmente quando duas habilidades importantes estão associadas ao mesmo comando.

Gurei

Apesar disso, o conjunto funciona. O jogo não oferece dezenas de opções para disfarçar uma base fraca. Gurei concentra sua energia em ataques, esquivas, saltos e poderes especiais, e exige que o jogador execute cada movimento com intenção. Quando a leitura dos padrões começa a fazer sentido, os confrontos deixam de parecer impossíveis e passam a funcionar como duelos cuidadosamente coreografados.

Uma pintura em preto e branco

A direção de arte é, sem dúvida, um dos grandes triunfos de Gurei. Os cenários monocromáticos possuem personalidade e conseguem transmitir a sensação de um espaço abandonado, estranho e preso entre duas realidades. Os Kami, por sua vez, recebem cores fortes que destacam sua presença e reforçam a importância de cada encontro.

Gurei

Os personagens têm silhuetas marcantes e animações expressivas. Mesmo quando a narrativa oferece poucas falas, o design visual consegue comunicar a personalidade de cada entidade. Um animal agressivo, um ser mais ágil ou uma criatura de comportamento imprevisível possuem movimentos que ajudam a antecipar seus estilos de combate.

A trilha sonora cumpre seu papel, mas não alcança o mesmo impacto da arte. As músicas contribuem para a atmosfera sombria e acompanham bem os momentos de tensão, porém raramente permanecem na memória depois que a batalha termina.

Gurei

Gurei é uma estreia corajosa da Lobo Sagaz Studio, com um jogo que apresenta uma proposta enxuta, mas encontra profundidade em sua estrutura de dificuldade dinâmica, na ordem dos chefes e nas habilidades adquiridas depois de cada vitória. Em vez de usar uma campanha extensa para esconder suas limitações, ele concentra tudo no que sabe fazer melhor ao criar confrontos memoráveis. Para quem gosta de boss rush, ação em duas dimensões e combates que exigem domínio verdadeiro, Gurei é uma recomendação instantânea.

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Nota final: 4/5


























Avaliação: 4 de 5.

Acesse o site oficial do jogo.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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