Você foi uma criança dos anos 1990, que cresceu comprando fichas com o troco do refrigerante para jogar Street Fighter no fliperama do barzinho da esquina, e aí imaginava como seriam aqueles personagens de poucos pixels em carne e osso hoje em dia? Ou é alguém com a linha frontal capilar mais sustentável que está no ranqueado do game e tem essa mesma curiosidade? Ótima notícia: o novo filme live-action do clássico da Capcom é tudo o que qualquer fã da franquia, de videogame, e de cinema poderia desejar!
Pros mais velhos, ignorem a má impressão deixada pela tentativa de 1994 com Jean-Claude Van Damme e Kylie Minogue. Pros mais novos, esqueçam os longas recentes de Mortal Kombat. A referência agora é outra, e bem melhor. O filme assinado pelo diretor Kitao Sakurai é pura magia em tela, abraçando nostalgia, deboche e paixão pela sétima arte e por joguinhos em uma mesma proporção. Street Fighter é uma da IPs mais emblemáticas dentro do universo de jogos de luta, e ela consegue aqui sua melhor adaptação, superando inclusive suas diferentes animações.
Na trama, em uma versão colorida e canastrona dos anos 90, é organizado o Torneio Mundial dos Guerreiros, uma competição onde os maiores nomes das artes marciais se enfrentam para saber quem é o maior lutador do planeta. Nesse cenário, dois garotos chamam atenção: Ken (Noah Centineo), um playboy ricaço que só causava problemas à família, e Ryu (Andrew Koji), um órfão com muito talento para a briga e uma estranha conexão com a magia e o “lado mau”. Ambos são treinados desde adolescentes pelo mesmo mestre e são praticamente irmãos.
Ryu vence o torneio, mas desaparece no mundo após um evento traumático. Já Ken abraçou uma persona de celebridade ao ser agenciado por Dan Hibiki (Andrew Schulz), trabalhando como modelo, fazendo comerciais para diferentes produtos, lutas de exibição e apresentações onde enfrenta ursos (!) ou destrói carros na base da porrada (!!). O bonitão é adorado pelo público, mas vira chacota entre outros lutadores por não representar as artes marciais de maneira adequada. E o vazio pelo sumiço do melhor amigo cria um buraco em seu peito que, por mais que ele tente disfarçar, já não consegue mais suportar tanto.

Imagem: Legendary Pictures/Paramount | Reprodução
Os anos se passam e um novo Torneio Mundial dos Guerreiros é anunciado. A agente Chun-Li (Callina Liang) é a responsável por convocar os lutadores que participarão dele, indo atrás de Ken e achando Ryu, que se tornou um ermitão vendedor de macarrão do qual ninguém quer se aproximar. Contudo, há um jogo dentro desse jogo: a competição é organizada pelo ditador Mr. Bison (David Dastmalchian, sensacional), um maluco com sede de poder cujo intuito é absorver a magia do Ryu, de modo que toda a competição é uma desculpa para que ele saia das sombras e seja capturado.
Porém, há também um jogo dentro do jogo dentro do jogo! Ryu, que tem uma conexão mágica com o mundo das trevas, sabe que o torneio evocará a presença de Akuma (Roman Reigns), um grande vilão que surgirá para enfrentar o vencedor do embate final. Então, os heróis têm de enfrentar vilões, vencer as lutas do torneio, ao mesmo tempo em que um déspota tirânico maluco tenta roubar poderes alheios, o mundo pode acabar pelo surgimento de uma criatura mística interdimensional e dois marmanjos precisam se reconciliar por anos de questões mal resolvidas. Tudo isso com várias desculpas para que ocorram lutas estilizadas em ambientes criativos. Parecem peças malucas demais para jogarem juntas, só que isso acaba funcionando.
Street Fighter segue a mesma linha de Mestres do Universo, do diretor Travis Knight. O filme entende o ridículo de sua própria premissa, abraça o exagero e transforma isso em entretenimento, sem deixar de levar seus personagens e conflitos a sério. Há uma pegada homoerótica no filme inteiro que é hilária. O Noah Centineo passa a rodagem quase toda sem camisa, fazendo poses e exibindo os gominhos do abdômen. Mocinhos e vilões deixam escapar diversos comentários sobre o quanto os personagens ali são todos sarados, gostosos e lindos.
Os personagens se jogam de cabeça em suas caricaturas, e a direção leva tudo tão longe que o exagero dá a volta e se torna cool. Mr. Bison é um autoritário tão patético quanto um vilão de desenho animado infantil, com direito a caretas, gritos, frases de efeito e até uma pintura encomendada por ele mesmo, na qual aparece como um deus nos céus. Ryu deveria representar o arquétipo do guerreiro japonês solitário e sábio? Na prática, acaba virando motivo de piada por onde passa.

Imagem: Legendary Pictures/Paramount | Reprodução
Guile (Cody Rhodes) é quase um integrante do Village People em seu visual e comportamento de militar durão. Chun-Li é uma guerreira tão bad girl e impressionante que, ao recrutar Dhalsim (Vidyut Jammwal) para o torneio, em vez de simplesmente se aproximar andando, surge em cena fazendo acrobacias. O próprio Dhalsim fala o tempo todo como se estivesse em uma cerimônia religiosa, mesmo nas situações mais cotidianas.
Só que, no fim, tudo isso faz sentido. Por baixo de toda a afetação cartunesca, Mr. Bison é, de fato, um vilão perigosíssimo, que controla um exército de fiéis, censura a mídia e prende e tortura qualquer um que se oponha a ele. Ryu realmente demonstra suas habilidades quando precisa lutar e sustenta a imagem de guerreiro nipônico inabalável. Guile é um militar honrado, que está ali para ajudar os outros. Chun-Li é mesmo a maioral e luta como ninguém. E Dhalsim tem sabedoria de sobra para agir como mentor toda vez que abre a boca.
As lutas são maravilhosas. Gosto especialmente de como usam os cenários em duas do Ryu. Uma delas acontece em um local cercado por barras, onde ele enfrenta Blanka (Jason Momoa, sim!), e os poderes elétricos do monstrão verde criam um efeito visual bacana. A outra é contra Honda (Hirooki Goto), em uma sauna, aproveitando a fumaça como um obstáculo visual. Toda uma sequência com o Ken e o Ryu em uma fuga de prisão, envolvendo trocação entre eles e com guardas, por vezes copiando o enquadramento das lutas do videogame, é uma delícia aos olhos. E os trechos onde o live-action é substituído por um animê deixam a experiência ainda mais imersiva.
Fica a impressão de que todo mundo envolvido nessa produção tem um carinho enorme pela franquia. Os easter eggs estão lá, mas não de maneira intrusiva nem a ponto de atrapalhar o andamento da história. Golpes clássicos, cenários e até recriações de cenas de Street Fighter II: O Filme, animê de 1994, são tratados com carinho. Sim, aquela cena da Chun-Li também foi lembrada.

Imagem: Legendary Pictures/Paramount | Reprodução
Tudo isso vem acompanhado de sensibilidades e discussões assustadoramente atuais sobre fascismo, sobre controle das narrativas e da mídia, sobre masculinidade, sobre saúde mental, sobre a experiência de ser uma figura adorada pelo público, mas carregar a insatisfação de não ter esse mesmo reconhecimento pelos pares. E por aí vai. A cena em que o Ken está cantando “What’s Up”, do 4 Non Blondes, pro Ryu, com o Dan dizendo para a Chun-Li que amizades entre homens têm certas complicações, resume bem a coisa toda.
Em 2026, insistir no papo de que Hollywood não consegue adaptar videogames para o live-action é uma besteira sem tamanho. Há uma porção de filmes legais de Sonic, Resident Evil e Tomb Raider, enquanto as séries de The Last of Us e Fallout fazem sucesso com o público e a crítica, entre outros exemplos. Particularmente, adoro o ar camp de DOA: Dead or Alive, dirigido por Corey Yuen em 2006, e até os longas antigos de Mortal Kombat têm seu charme.
Mas Kitao Sakurai supera todos eles por aqui. Street Fighter é um filmaço! Daqueles com visual deslumbrante, personagens cativantes, lutas que despertam emoções joviais e uma porção de momentos que ficam na cabeça muito tempo depois da sessão. Quem diria?
Street Fighter estreia hoje (15) nos cinemas!
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