Entre defeitos e qualidades, é possível dizer que os dois animês anteriores de Digimon miraram em maneiras específicas de desenvolvimento. O péssimo Digimon Adventure: atendeu ao desejo de uma parcela dos fãs de ver mais dos digimons como criaturas, de suas lores, das interações entre si e com o Digimundo. Nessa, os personagens humanos praticamente foram deixados de lado, e o resultado desastroso foi um imenso fanservice que ninguém se importou em assistir. Já o divertidinho Digimon Ghost Game voltou mais os olhos aos personagens humanos, fazendo de seus dramas o norte da série animada na maior parte do tempo.
Ao terminar de assistir a Digimon Beatbreak, fiquei com a impressão de que a animação teve como ordem inicial retomar o equilíbrio entre personagens humanos e digimons, algo em que a franquia era especialista nos primeiros anos, mas vinha deixando a desejar havia mais de uma década. A série consegue dar espaço aos dois lados da relação sem transformar os monstrinhos em meros acessórios fofinhos dos protagonistas nem reduzir os humanos a figurantes de luxo para as evoluções dos seus parceiros.
A trama se passa num mundo futurista onde as pessoas portam um aparelho em formato de ovo chamado sapotama, equipado com uma inteligência artificial que funciona como assistente pessoal e cuida de boa parte da vida dos usuários. O problema é que esses aparelhos são alimentados pelo e-pulse, uma energia vital transmitida por meio de um chip que todos carregam na mão. E, de maneira misteriosa, criaturas chamadas digimons começaram a chocar das sapotamas. Alguns deles são perigosos para a sociedade, já que também se alimentam de e-pulse, fazendo suas vítimas entrarem em cold heart, um estado catatônico em que ficam completamente congeladas.
O protagonista, Tomorou Tenma, é atacado por dois desses digimons, atraídos pela batida diferente de seu e-pulse, mais extensa, intensa e, consequentemente, saborosa para os monstrinhos. O moleque é salvo pelo irmão, Asuka Tenma, que acaba entrando em cold heart e tendo seu e-pulse roubado por um misterioso digimon com aparência de macaco. Nesse processo, a sapotama de Tomorou eclode e dela surge o fofíssimo Gekkoumou, um digimon camaleão tão divertido quanto atrapalhado, que se torna seu parceiro dali em diante.
Tomorou acaba acolhido pela Glowing Dawn, uma equipe de outros “digiescolhidos” que trabalha como cleaners, limpadores de digimons perigosos. A existência dessas criaturas é escondida da população, mas há todo um sistema governamental e privado dedicado à caça e à derrota delas em troca de recompensas, com direito a cleaners famosos e tudo. E como toda sociedade aparentemente muito organizada e utópica, essa também tem seus esqueletos no armário. Mais pra frente, descobrimos submundos ilegais envolvendo leilões de digimons, casas de apostas em batalhas, escravidão e instituições paramilitares especializadas em assassinatos internacionais.

Imagem: Toei Animation/Reprodução
A partir daí, Tomorou e os demais integrantes da equipe vivem aventuras enfrentando os digimons da semana, novos inimigos e ameaças que vão escalando até consequências mundiais e, eventualmente, interdimensionais. É uma estrutura bastante familiar para quem acompanha Digimon, mas o que realmente faz Beatbreak funcionar é a maneira como trata a relação entre os parceiros. Os digimons não são apenas armas que os protagonistas tiram do bolso quando a situação aperta. Como nas melhores temporadas de Digimon, suas evoluções acompanham o desenvolvimento dos vínculos com os humanos, de modo que o crescimento de um acaba refletindo o do outro.
Há algo… interessante em Beatbreak. O roteiro, pela primeira vez, explora terrenos mais agressivos dentro de uma série infantil. A história passeia por lugares bastante pesados, com personagens matando outros, traumas físicos e psicológicos que deixam marcas reais (literalmente um dos protagonistas tem um braço amputado e anda com marcas de queimadura). Há tramas envolvendo tráfico internacional, escravidão e militarização. Tem personagem cujo intuito de vida é se colocar para morrer como escudo. Uma das vilãs da semana usa seu digimon como um serial killer. Outro dos vilões é ele mesmo um psicopata que usa digimons que ele captura para assassinar outras pessoas. Em outro momento, quase ocorre um genocídio dentro de uma cidade. O lado edgy simplesmente vai e vai.
Não é que Digimon nunca tenha flertado com assuntos sombrios, mas Beatbreak parece particularmente disposta a lembrar que, quando você constrói um mundo em que criaturas podem ser capturadas, comercializadas, exploradas e usadas como ferramentas de combate, as consequências éticas dessa situação são um tanto mais complicadas do que a fantasia de ter um amiguinho virtual para viver aventuras divertidas. Remonta ao conflito moral do péssimo filme Digimon Adventure 02: O Início, de 2023, naquilo de “e se todos do mundo tiverem um Digimon, mesmo os psicopatas?”, mas aqui colocado em prática.
Enxergo dois problemas nessa abordagem do animê. O primeiro é que, como ele apresenta personagens extrapolando tanto os limites da agressividade em termos sociais, fica difícil não esperar que as consequências desses atos não sejam letais, o que é uma expectativa esquisitíssima para um desenho infantil. Já o segundo é que o animê fica quase depressivo diante de tantos eventos pesados.

Imagem: Toei Animation/Reprodução
Quem acompanha a franquia há algum tempo também ganha seus biscoitinhos. Beatbreak sabe brincar com a memória afetiva dos fãs ao trazer digimons clássicos, inclusive criaturas associadas a linhas evolutivas de vilões conhecidos, como Myotismon, Piedmon e Diaboromon. Essas aparições ajudam a conectar a série à mitologia mais ampla da franquia sem depender exclusivamente da nostalgia para justificar sua existência. Mesmo a piada da fanbase de sempre um “Leomon” morrer é referenciada aqui.
Já visualmente, a série merece todos os créditos. A animação é animal, especialmente quando a narrativa atravessa para a versão deles de Digimundo e a direção de arte começa a brincar com as cores dos traços, como se fosse uma viagem ácida da estética vibrante da internet na virada do milênio, referenciado aqui ao filme Bokura no War Game!, de 2000. Esse trabalho visual ajuda a vender a dimensão fantástico-digital da história e demonstra que ainda existe espaço para brincar com a linguagem da animação dentro de uma franquia tão estabelecida.
Mas por mais que Beatbreak acerte na relação entre humanos e digimons, na construção do universo, na escalada dos conflitos, e até tente algo novo nessa abordagem soturna e edgy, existe uma questão fundamental que insiste em me incomodar: a série é meio chatona quando fica presa à trama urbana. Boa parte do tempo é gasta nesse esquema de investigar incidentes, caçar digimons perigosos e lidar com as consequências deles no mundo humano. Só que fica repetitivo bem rápido. A estrutura de missões e ameaças crescentes acaba deixando o animê com uma cara de série de ação urbana “CSI” genérica com uma skin de Digimon, enquanto o elemento mais interessante da franquia, o Digimundo, fica escanteado na maior parte da história.
Aí que entra uma implicância bem particular. Pra mim, Digimon funciona melhor quando abraça a aventura isekai, com os protagonistas perdidos em um lugar desconhecido, descobrindo suas regras, encontrando criaturas estranhas e precisando aprender a sobreviver enquanto seus próprios vínculos são colocados à prova. Pode chamar de nostalgia, mas existe algo na estrutura de uma viagem para outro mundo que combina muito mais com a proposta da franquia do que ficar resolvendo problemas em ruas, prédios futuristas e escolas. Quando os personagens estão no Digimundo, a sensação de descoberta cresce, o visual ganha outra força e a relação com os parceiros parece ocupar o espaço que merece.
Digimon Beatbreak parece entender algo que a franquia passou anos tentando equilibrar. Os digimons precisam ser personagens, e não apenas bichinhos de estimação ou máquinas de combate, enquanto os humanos precisam ter histórias próprias que justifiquem a importância dessa parceria. A série acerta ao fazer o básico de as evoluções acompanharem o desenvolvimento dos relacionamentos, ao caprichar na apresentação visual, e desperta curiosidade ao expandir seu universo para territórios moralmente mais sombrios. Não é uma curiosidade BOA, mas ao menos é uma tentativa de algo diferente. Porém, aargh, Toei, na próxima, joguem as crianças digiescolhidas dentro do Digimundo, não aguento mais esses “e se tivessem digimons na nossa realidade?”, desde o Adventure Tri é a mesma coisa.
Digimon Beatbreak foi exibido aqui no Brasil via streaming através da Crunchyroll com legendas em português.
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