Algo é inegável sobre Junji Ito: ele sabe causar uma grande impressão, principalmente quando se tem o primeiro contato com suas obras. As histórias repletas de mistério do autor, acompanhadas por desenhos que elevam o grotesco a outro nível, são sempre impactantes.
Após algum tempo, porém, certos artifícios recorrentes do mangaká podem se tornar um tanto quanto insípidos devido à maneira como são explorados repetidamente. É o caso dos contos com finais em aberto (o que pode ou não ser consequência da limitação de páginas das revistas em que foram publicados) e das ilustrações de mortos-vivos corroídos, que parecem ficar cada vez menos assustadoras.
Por esse motivo, a coletânea As Esculturas Sem Cabeça, que chegou ao Brasil em 2023 pela Pipoca & Nanquim reunindo 12 histórias macabras, pode ser enfadonha para alguns leitores. Isso, entretanto, não obscurece os diversos pontos altos da publicação, que merecem ser destacados. Afinal, se há algo que comprova a maestria de Ito como mangaká é sua capacidade de criar atmosferas de terror.

Imagem: Reprodução/Junji Ito/Pipoca e Nanquim
Essa qualidade pode ser notada logo no primeiro conto, o instigante “Fio Vermelho do Destino”. Aqui, além de flertar com o sobrenatural em uma história de obsessão e intrigas, o autor se permite explicar as origens das forças místicas que tomam conta de seu protagonista. A narrativa apresenta um desfecho mais fechado, algo incomum para Ito, mas as imagens grotescas e chocantes continuam presentes, de uma forma até mesmo divertida.
Curiosamente, a coletânea reúne um número expressivo de histórias que não recorrem a essa imagética bizarra, o que está longe de ser um ponto negativo. Algumas das melhores narrativas, como “O Circo Chegou” e “Cidade dos Mapas”, apostam muito mais na construção de situações terríveis e envolventes do que na produção de imagens já desgastadas de mortos em decomposição.
Outros contos conduzem o autor por caminhos pouco explorados. O ótimo “Espantalho” mostra o que acontece quando espantalhos de um cemitério começam a assumir a forma das pessoas enterradas em suas tumbas; enquanto o curioso “Colmeia” apresenta uma narrativa de psicose e assassinato protagonizada por um rapaz fascinado por diferentes tipos de colmeias. Ambos os exemplos fogem do que tradicionalmente se vê em histórias de horror e elevam a coletânea a outro nível.

Imagem: Reprodução/Junji Ito/Pipoca e Nanquim
Estranhamente, o conto “As Esculturas Sem Cabeça”, que dá nome à publicação, figura entre os mais fracos aqui reunidos. Nele, todos os vícios narrativos de Ito se encontram: corpos mortos, situações sem explicação e um desfecho bastante aberto se combinam, mas não conseguem provocar qualquer impacto relevante.
Algo semelhante acontece com “Ponte”, “Vida Curta” e “Bilhete Suicida”. Embora apresentem estruturas iniciais bastante instigantes, com boas construções de suspense, essas histórias acabam desembocando em conclusões ineficientes ou desenvolvendo imagens tão corriqueiras na obra do mangaká que chegam a ser enfadonhas.
Entretanto, há um clichê que nunca deixa de ser bem-vindo: a qualidade das publicações da Pipoca & Nanquim. Aqui, o leitor recebe uma obra acompanhada de luva para a capa, cartões colecionáveis e marcador de página, um verdadeiro deleite para os admiradores do mestre do terror.
Há charme na coletânea As Esculturas sem Cabeça, pois Junji Ito continua sendo uma leitura instigante, capaz de mexer com a imaginação de uma forma ou de outra. Ainda assim, existem outras obras do autor melhores e mais bem-acabadas, especialmente para aqueles que não são aficionados pelo universo de mistério desse mangaká — fica a recomendação da coletânea Calafrios, também publicada aqui pela Pipoca e Nanquim.
Galeria de fotos
Confira no álbum abaixo alguns registros da edição nacional de As Esculturas sem Cabeça pela Pipoca e Nanquim:

Sobrecapa. | Foto: Rafael Brito/JBox

Lombada da sobrecapa. | Foto: Rafael Brito/JBox

Sobrecapa. | Foto: Rafael Brito/JBox

Sobrecapa aberta. | Foto: Rafael Brito/JBox

Orelha e 1ª página. | Foto: Rafael Brito/JBox

Orelha e última página. | Foto: Rafael Brito/JBox

Capa. | Foto: Rafael Brito/JBox

Lombada. | Foto: Rafael Brito/JBox

4ª capa. | Foto: Rafael Brito/JBox

Sumário. | Foto: Rafael Brito/JBox

Páginas de história. | Foto: Rafael Brito/JBox

Páginas de história. | Foto: Rafael Brito/JBox

Páginas de história. | Foto: Rafael Brito/JBox

Páginas de história. | Foto: Rafael Brito/JBox

Páginas de história. | Foto: Rafael Brito/JBox

Páginas de história. | Foto: Rafael Brito/JBox

Página sobre autor. | Foto: Rafael Brito/JBox

Marcador de páginas. | Foto: Rafael Brito/JBox

Cards colecionáveis. | Foto: Rafael Brito/JBox

Cards colecionáveis. | Foto: Rafael Brito/JBox

Card colecionável. | Foto: Rafael Brito/JBox

Card colecionável. | Foto: Rafael Brito/JBox

Card colecionável. | Foto: Rafael Brito/JBox

Card colecionável. | Foto: Rafael Brito/JBox
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Outras críticas de obras de Junji Ito:
Essa resenha foi feita com base na edição cedida como material de divulgação para a imprensa pela editora Pipoca & Nanquim, que disponibilizou o volume da obra ao JBox.
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