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Pedacinhos: uma aula de truques narrativos do mestre do ero guro nansensu

Uma boa obra de ficção engana/ilude o leitor. Segundo Alan Moore, o bom roteirista vai mentir para o leitor, e este por sua vez vai ser grato por ter sido enganado. A subversão de expectativas está no cerne de uma boa obra ficcional. Shintaro Kago é um mestre nessa arte e mostra isso muito bem em Pedacinhos (DarkSide Books, 2024).

Capa de Pedacinhos.

Pedacinhos é uma antologia que contém a história que dá nome ao título e vários outros contos. Abaixo uma breve descrição de cada um dos contos, evitando dar spoiler para aqueles que ainda não leram.

Pedacinhos

Há um maníaco fatiador à solta em Tóquio. Trabalhadores de um café se veem envolvidos em uma trama que vai se tornando cada vez mais insólita. Enquanto isso o próprio Shintaro Kago aparece como personagem na trama paralela. A estrutura de Pedacinhos é a mesma utilizada em Anamorfose, com duas tramas andando em paralelo até se encontrarem no final.

Páginas internas de Pedacinhos.

A trama de Pedacinhos em grande parte é característica de filmes de terror, metalinguisticamente debatidos pelos próprios personagens. Vários filmes são citados de diretores que marcaram o gênero, como Dario Argento, George Romero, Mario Bava e Lucio Fulci. Detalhes desses filmes e diretores podem ser lidos no glossário.

Cartaz japonês de O Retorno da Maldição / Mãe das Lágrimas (Dario Argento, 2007).

A relação com o cinema chega até mesmo à uma comparação o caso real da “Dália Negra” refere-se ao brutal e famoso assassinato da aspirante a atriz Elizabeth Short, de 22 anos, cujo corpo mutilado foi encontrado em um terreno baldio em Los Angeles, em 15 de janeiro de 1947. Até hoje, o crime permanece como um dos cold cases (casos arquivados sem solução) mais intrigantes da história criminal dos Estados Unidos.

Shintaro Kago começa refletindo sobre o motivo de colecionar e o significado de uma coleção (detalhe para as obras escatológicas, que o próprio produz na vida real).

Depois, o autor/personagem dá uma aula de truques narrativos! Essa aula vai continuando até passar a aplicar essas lições na trama principal.

Páginas internas de Pedacinhos.

Interessantemente o nome original, Fraction, Fração, em tradução literal para o português, faz muito mais sentido do que o nome escolhido para a versão brasileira.

Glossário e Bate-Papo Especial

Após Pedacinhos há um glossário que explica todas as referências. E logo após há um bate-papo entre Shintaro Kago e Ryuichi Kasumi. Kasumi é um mangaká conhecido por obras de baka-misu, obras de ficção e mistério que desafiam a lógica ou o bom senso.

O homem que retornou

Uma mulher cuida de seu marido enquanto ele está acamado. Os dois vivem situações opostas, enquanto ele atinge o orgasmo com o mais suave dos toques, ela busca a dor para tentar conseguir o mesmo.

Erotismo, tortura e sadomasoquismo são fortes elementos nesse conto. A pele surge como elemento metafórico em uma sociedade japonesa do pós-guerra, sofrendo com efeitos pós-traumáticos que por um lado deixam as sensibilidades à flor-da-pele e por outro lado dessensibilizam.  

Tremor

Um homem anda pela cidade após O Grande Terremoto, observando os efeitos do trauma psicológico nas pessoas, enquanto ele mesmo sofre. A reflexão feita pelo personagem associa o tremor à vida, e sua ausência ao cessar da vida.

A trama tem com base o que ficou conhecido na época como O Grande Terremoto, também conhecido como Grande sismo de Kantō, ocorrido no Japão em 1923. Após a publicação original de Pedacinhos, em 2009, pelo menos mais 3 terremotos maiores do que o de 1923 ocorreram no Japão.

Colapso

Uma mulher paranoica e deprimida “trabalha” de forma inusitada até que descobre sua vocação.

Paranoia e obsessão andam juntas neste conto que flerta tanto com suicídio quanto com fantasias sexuais.

Páginas internas de Pedacinhos.

Comichão

Yukie vai visitar sua amiga após esta retornar de uma viagem à América do Sul e descobre que ela foi parasitada por um inseto.

Sadismo e delírio carregam este conto, que visualmente é o mais detalhado e um dos mais chocantes.

Análise dos elementos que constituem a obra

Roteiro: O roteiro de Pedacinhos, a história principal, é absolutamente genial pela sobreposição de camadas metalinguísticas. O roteiro dos demais contos da antologia é pesado, intenso, e consegue unir os elementos absurdos com temáticas de peso na vida real em um equilíbrio perfeito.

Ilustração: O traço dos personagens consegue transmitir todo o choque de uma anatomia exposta ao ser mutilada. Assim a escolha de ângulos que favorecem o erotismo em combinação com o grotesco. Menção especial para o conto Comichão, onde o autor se supera no nível de detalhamento.

Autor

Shintaro Kago nasceu em 1969 em Tóquio. Desde jovem almejava dedicar-se a trabalhos criativos e, embora tenha considerado a indústria cinematográfica, decidiu se tornar autor de mangá por sua afinidade com o desenho. Depois de estrear pela revista Comic Box em 1988 com o mangá Uchuu Dai Sakusen, conquistou uma ampla base de leitores publicando suas obras em diversas revistas de mangá para adultos. O autodenominado autor bizarro de mangás apresenta uma visão surreal e absurda do mundo explorando os gêneros ero guro (erótico e grotesco), horror e ficção científica, com uso marcante do humor ácido. Atua também no segmento audiovisual e na produção de figuras de ação e objetos escatológicos.  

Prêmios:

– 2010 – 3º Prêmio Mundial Baka-misu por Pedacinhos.

– 2013 – Prêmio honorário como convidado no XIX Salão de Mangá de Barcelona, na Espanha.

Reflexões finais

O bom roteirista vai mentir para o leitor, e este por sua vez vai ser grato por ter sido enganado, já disse o grande Alan Moore. Shintaro Kago mostra que é um mestre nessa arte em Pedacinhos. Indo até mesmo além ao usar multicamadas de metalinguagem. O autor se torna personagem, que continua sendo autor ao dar uma aula sobre truques narrativos. E com isso surpreende o leitor tanto como autor quanto como personagem.

Quantos aos demais contos que compõe essa antologia, todos excelentes, aqui é útil fazer uma comparação com os contos vistos em Anamorfose, outra antologia de Shintaro Kago. Nela se sobressai o humor negro, enquanto em Pedacinhos os contos são mais tristes e/ou dramáticos. Principalmente pela forma como são abordados traumas coletivos.

Ao fim, Pedacinhos não deixa dúvidas de que Shintaro Kago é um mestre de seu gênero. É provável que o leitor termine a leitura com a vontade de já realizar uma releitura. Será que alguma camada de significação passou despercebida? Algum simbolismo permaneceu escondido? Talvez uma sessão de cinema com os mestres do terror traga à luz o impacto formativo que estes tiveram no mestre do ero guru nansensu.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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