A DC Comics é o lar de algumas das histórias mais icônicas da cultura pop, mas poucas alcançam o nível de genialidade e profundidade de “Homem-Animal”, escrita por Grant Morrison.
No início de sua carreira na editora, o autor escocês assumiu um personagem do segundo escalão, praticamente sem relevância, e o transformou no centro de uma narrativa revolucionária.
O ápice dessa fase acontece na histórica edição número 5, intitulada “O Evangelho do Coiote”.

A trama começa no deserto do Vale da Morte, onde um caminhoneiro atropela uma criatura bípede que mistura feições humanas e de coiote.
Assustado, o motorista foge sem prestar socorro. Sem que ele saiba, o ser misterioso possui uma capacidade de regeneração milagrosa e sobrevive ao impacto.
Paralelamente, a HQ desenvolve a vida cotidiana de Buddy Baker, o Homem-Animal. Em uma cena marcante, Buddy decide esvaziar a geladeira e anuncia à sua esposa, Ellen, que a família deve adotar o vegetarianismo.
O herói, que absorve os poderes e a essência dos animais, começa a questionar o consumo de carne e o sofrimento das outras espécies. A decisão repentina gera uma discussão familiar, fazendo com que Buddy saia de casa voando para clarear as ideias.
Enquanto isso, a história retorna ao deserto e revela que a vida do caminhoneiro desmoronou no ano seguinte ao acidente.
Consumido pela culpa e por tragédias pessoais, o homem enlouquece e passa a acreditar que o coiote bípede é um demônio responsável por todas as suas desgraças.
Ele inicia uma caçada implacável, armando armadilhas mortais que mutilam a criatura repetidamente, mas o ser sempre se regenera, aumentando o terror do perseguidor.
O confronto atinge o ápice com uma explosão que atrai a atenção do Homem-Animal, que sobrevoava a região.
Ao pousar no local, Buddy encontra a criatura ferida, que lhe entrega um pergaminho. É neste momento que a HQ atinge seu nível mais alto de metalinguagem.
O documento revela que o ser se chama Ardiloso e veio de uma dimensão semelhante aos desenhos animados dos Looney Tunes.
No seu mundo original, Ardiloso e seus companheiros eram submetidos a uma eternidade de violência física extrema apenas para o entretenimento de um criador cruel, o desenhista.
Cansado do ciclo de dor, o coiote viajou até o “Céu” para confrontar essa divindade. Como punição pela audácia, o artista o exilou no universo convencional da DC Comics.
Incapaz de compreender o idioma do pergaminho, Buddy assiste impotente quando o caminhoneiro, agonizante no topo de um penhasco, dispara um tiro certeiro com uma bala de prata.
O projétil atravessa o coração de Ardiloso, tirando sua vida de forma definitiva. Nos quadros finais, a perspectiva se afasta e revela a mão do próprio desenhista da HQ colorindo o sangue da criatura com um pincel, escancarando a fragilidade daqueles personagens diante do criador da história.
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