Vinte e oito séculos depois, A Odisseia continua fascinando gerações. A adaptação da obra clássica de Homero por Gareth Hinds em formato de graphic novel traz mais um olhar sobre o épico.

A Odisseia (DarkSide Books, 2026) condensa o texto original em uma obra visual ao mesmo tempo épica e dinâmica. Esta versão brasileira conta com uma fascinante e muito informativa introdução de Enéias Tavares, escritor e professor de literatura na UFSM. Bem como notas do próprio autor, detalhando a pesquisa e o seu processo criativo, além de comentários mais aprofundados sobre suas fontes, traduções preferidas e liberdades visuais e textuais.

A obra de Gareth Hinds traduz e adapta perfeitamente bem o épico de Homero, criando uma linguagem visual que transmite a sensação de estarmos presenciando a Idade Antiga, bem como uma fantasia mitológica onde deuses influenciam e interferem diretamente na narrativa.
Estrutura
A Odisseia é dividida em 24 cantos, estruturalmente organizados em 3 partes: 1) “Telemaquia” (cantos I-IV): vemos as aventuras de Telêmaco em busca do pai; 2) “Retorno” (cantos V-XII): seguimos Odisseu em suas viagens; 3) “Ítaca” (cantos XIII-XXIV): testemunhamos as tramas dos pretendentes e o desenlace do drama.
Período histórico
A Odisseia foi composta na Idade Antiga (ou Antiguidade, período que foi de 4.000 AEC a 476), aproximadamente no século VIII AEC. A obra em si retrata a Idade do Bronze grega (período que foi de 3.300 AEC a 1.200 AEC), se passando no século XII AEC.
Autoria da obra original
Embora a autoria de A Odisseia seja classicamente e habitualmente atribuída a Homero, essa autoria é contestada. O debate em torno dessa contestação de autoria ficou conhecido como Questão Homérica.
O debate divide-se em três principais eixos: 1) Autor único: Sustenta que existe uma unidade artística, uma estrutura narrativa sofisticada e uma consistência psicológica tão profundas que ela só poderia ter sido composta por uma única mente genial; 2) Múltiplos autores: Defende que A Odisseia é formada por colagens de poemas curtos e independentes criados por diferentes bardos (aedos) ao longo dos séculos; 3) Composição Oral-Formular: Os poemas teriam nascido em uma cultura puramente analfabeta. Os poetas não memorizavam textos fixos; eles utilizavam “fórmulas” métricas fixas como blocos de construção para improvisar e reestruturar a história ao vivo em cada performance. “Homero” pode não ser um homem real, mas o nome dado ao próprio processo de evolução dessa tradição oral culminada em Atenas.
A jornada do herói
A obra é o principal arquétipo histórico da jornada do herói, contendo todas as partes do mito:
– O Chamado à Aventura: A vitória em Troia e a necessidade de voltar para casa (Ítaca).
– O Mundo Sobrenatural e as Provações: Enfrentar Polifemo, a Feiticeira Circe, o canto das Sereias e a ira de Poseidon.
– A Descida / O Ponto Mais Baixo: A perda de toda a tripulação e a estagnação na ilha de Calipso.
– A Transformação: O herói usa astúcia e aprende a dominar a própria vaidade.
– O Retorno: Chega a Ítaca para restaurar a ordem em seu lar.

Palavras que incorporamos modernamente no cotidiano
Muitas palavras que usamos no cotidiano têm sua origem no grego e algumas mais especificamente na obra de Homero:
– Odisseia: vem do grego antigo Odysseía, que significa “a história de Odisseu”. Como a jornada do personagem foi longa, difícil e cheia de obstáculos, a palavra passou a ser usada no sentido comum para descrever qualquer viagem ou série de eventos muito compridos, cansativos e cheios de surpresas difíceis.
– Mentor: vem do grego antigo Méntōr. Mentor era o amigo de Odisseu, que cuida e orienta seu filho, Telêmaco.
– Homérico: vem de Homero. Modernamente significa algo grandioso, épico ou monumental.
– Hecatombe: vem do grego hekatómbe (hekaton = cem, bous = boi), significando originalmente um sacrifício ritual antigo de cem bois. Modernamente passou a indicar qualquer desgraça de proporções gigantescas, como guerras, pandemias ou grandes catástrofes.
– deus ex machina: termo surgido no teatro grego que significa “deus surgido da máquina”, por conta dos atores interpretando divindades, içados por um engenhoso maquinário e entrando em cena para resolver um conflito. Na Odisseia vemos os deuses interferindo diretamente nos acontecimentos. Modernamente é utilizado na literatura e dramaturgia como denominação para uma resolução narrativa milagrosa.
Adaptações
Dada a sua importância cultural, A Odisseia já foi adaptada para diversas mídias.
No cinema a primeira adaptação é de 1911, L’Odissea, filme mudo italiano de Giuseppe de Liguoro. E a mais recente é deste ano, A Odisseia, filme escrito e dirigido por Christopher Nolan.
Na ópera e música a primeira adaptação é de 1640, Il ritorno d’Ulisse in patria, ópera de Claudio Monteverdi. E a mais recente é Épico: O Musical, uma série de nove partes de álbuns conceituais (chamados de “sagas”) com músicas e letras de Jorge Rivera-Herrans, lançados entre 2022 e 2024.
Nos quadrinhos a primeira adaptação é de 1951, a edição #81 da revista Classics Illustrated (na época chamada Classic Comics), publicada pela editora Gilberton, com arte interna de Harley Griffiths e capa pintada por Alex A. Blum. A Graphic novel foco desta matéria foi lançada originalmente em 2010, em inglês, pela Candlewick Press. E está sendo lançada no Brasil agora pela DarkSide Books.
Análise dos elementos que constituem a obra
Roteiro: O roteiro é conciso. Em momentos mantendo os diálogos mais próximo o possível da obra original e ao mesmo dando a dinamicidade da obra visual.
Arte: Os traços são delicados e detalhados. Trazendo um realismo perfeitamente bem mesclado com a fantasia. Esse tom é reforçado pelo uso de cores suaves e com graduações de tonalidades bem atenuadas.

Autor

Gareth Hinds é autor e ilustrador de graphic novels e livros ilustrados inspirados em obras clássicas da literatura e da mitologia. Por meio de seu trabalho, compartilha sua paixão pelas grandes narrativas com leitores de todas as idades. Sua adaptação de A Odisseia lhe rendeu o prêmio Literary Lights for Children, concedido pela Boston Public Library.
Outras obras
– Graceling (2021)
– The Iliad (2019)
– Poe: Stories and Poems (2017)
– Samurai Rising (2016)
– Macbeth (2015)
– Romeo and Juliet (2013)
– Gifts From the Gods (2011)
– King Lear (2009)
– The Merchant of Venice (2008)
– Beowulf (2007)
– Gulliver’s Travels (2003)
– Three Strong Women (2002)
– Bearskin (1998)
– Deus Ex Machina (1997)
– Cosmic (1996)
Tradução: Daniel Fontana
Preparação: Daniel Bonesso
Introdução: Enéias Tavares
Reflexões finais
A Odisseia é uma continuação de A Ilíada, obra que retrata a Guerra de Tróia. A Odisseia começa exatamente dez anos após o fim dessa guerra. Sua influência cultural chega até a Idade Contemporânea, pois além de mostrar a cultura e a mitologia da Grécia Antiga, representa classicamente a Jornada do Herói. Um arquétipo mitológico que serve de base para narrativas criadas até hoje.
Gareth Hinds capta a sensação da jornada do herói transmitida em A Odisseia, criando uma atmosfera que transita entre o realismo e a sensação onírica quando os deuses interagem com os mortais. Ele habilmente transita entre planos amplos, dando plena sensação de dimensão espacial onde a narrativa acontece. Assim como muda para planos angulosos e cores intensas quando vemos conflitos com as criaturas mitológicas.
A graphic novel de Gareth Hinds retrata lindamente o épico de Homero. Para além dos elementos visuais da realidade mesclado com a maestria com o mitológico, talvez um elemento que chame muito a atenção é um comportamento: a xenia. Xenia era um ritual de hospitalidade dos antigos gregos. Primeiro as pessoas eram bem recebidas e alimentadas, depois se perguntava quem eram e a que vinham. O termo, derivado da palavra xeno, que significa “estrangeiro”, designa um vínculo de reciprocidade entre as duas partes, um comportamento visto como uma obrigação moral, honrando o próprio Zeus nesse processo. Este comportamento pode causar ainda mais estranheza nos dias atuais, onde o prefixo xeno se vê muito mais associado a xenofobia (tristemente).
E para além de todas as adaptações diretas e indiretas da obra, A Odisseia também começa a ser interpretada/cooptada por indivíduos contemporâneos para buscar sentido em uma vida cada vez mais atribulada, onde o próprio ato de retornar para casa após um exaustivo dia de trabalho parece ter se tornado uma odisseia… diária.
—
Matérias relacionadas:
A origem da palavra mentor vai muito além da educação e começa na mitologia grega.
O significado dos Povos do Mar em A Odisseia muda completamente a história do filme.
Por que O Brother, Where Art Thou? ainda é considerada a melhor adaptação de A Odisseia de Homero.
Christopher Nolan realiza sonho de quase 40 anos ao filmar A Odisseia inteiramente em IMAX.
A Odisseia ganha balde de pipoca em forma de Cavalo de Troia.
Veja mais sobre Livros e HQs!




