Quando se fala na corrida mundial pela inteligência artificial, o mapa parece relativamente fácil de desenhar. Estados Unidos e China estão na frente, enquanto empresas como OpenAI, Google, Anthropic, Meta e suas concorrentes chinesas disputam quem consegue criar os modelos mais poderosos. Europa, Japão, Coreia do Sul e Índia também tentam garantir espaço nessa nova corrida tecnológica.
Mas e o Brasil?
O país não possui, hoje, uma empresa capaz de competir diretamente com as gigantes que desenvolvem os modelos de IA mais avançados do mundo. Também depende do exterior para tecnologias fundamentais, como chips de última geração e boa parte da infraestrutura digital.
Isso não significa, porém, que o Brasil seja irrelevante nessa disputa. Na verdade, o país possui algo que a inteligência artificial precisa desesperadamente para continuar crescendo: energia, água, território, minerais, infraestrutura e dados.
É aí que surge uma questão bem mais interessante do que simplesmente perguntar se o Brasil está atrasado na IA. O país vai usar seus recursos para desenvolver capacidade tecnológica própria ou corre o risco de se tornar um grande fornecedor da infraestrutura física que mantém a inteligência artificial estrangeira funcionando?
A chamada nuvem pode parecer abstrata, mas a IA está longe de ser imaterial. Por trás de cada chatbot, gerador de imagens ou sistema automatizado existem servidores, chips, cabos, centros de processamento, redes elétricas e sistemas de refrigeração.
E tudo isso consome recursos. Quanto mais sofisticados ficam os modelos, maior é a infraestrutura necessária para treiná-los e mantê-los funcionando. Data centers precisam de eletricidade continuamente e produzem muito calor, o que exige sistemas de resfriamento. Dependendo da tecnologia utilizada, a água também entra diretamente nessa conta.
O Brasil aparece nesse cenário por causa de sua matriz energética. O país possui uma das maiores participações de fontes renováveis na geração de eletricidade do mundo e vem ampliando principalmente a energia eólica e solar. No Nordeste, por exemplo, existem períodos em que a produção de energia renovável supera a capacidade de aproveitamento da rede.
Isso transformou o país em um candidato interessante para receber grandes centros de dados. A lógica é simples: empresas precisam de muita eletricidade para alimentar seus servidores e o Brasil possui uma oferta significativa de energia renovável.
Mas existe um detalhe que não pode ser ignorado. Energia limpa não significa impacto ambiental zero. Um estudo publicado em 2026 na revista Cambridge Prisms: Water estimou uma pegada hídrica anual de 16,1 milhões de metros cúbicos para uma infraestrutura de tecnologia da informação de aproximadamente 550 MW na região metropolitana de São Paulo. Parte significativa desse volume está relacionada indiretamente à geração hidrelétrica utilizada para produzir a eletricidade consumida pela infraestrutura.
Ou seja, até mesmo a energia renovável possui uma relação com água, território e clima.
E isso pode se tornar cada vez mais importante à medida que a IA aumenta sua demanda por eletricidade.
O problema já começa a aparecer em projetos concretos. No Ceará, um grande projeto de data center ligado à ByteDance, dona do TikTok, envolve o uso de energia eólica e colocou em discussão questões relacionadas ao consumo de recursos, ao licenciamento ambiental e aos impactos sobre comunidades indígenas. O debate mostra que a chegada de um data center não deveria ser tratada simplesmente como sinônimo de progresso tecnológico.
É preciso perguntar quanto de energia será consumido, quanto recurso natural será utilizado, quantos empregos serão criados, que tipo de pesquisa será realizada e quanto conhecimento permanecerá no país.
Porque existe uma diferença enorme entre o Brasil abrigar um data center e o Brasil controlar a tecnologia que roda dentro dele. Imagine uma empresa estrangeira construindo um enorme centro de processamento no país. Os servidores estão em território brasileiro e utilizam eletricidade brasileira, mas os chips vêm de fora, o software é estrangeiro, o modelo pertence a uma companhia internacional e os principais lucros retornam para o exterior.
O Brasil forneceu o espaço e a infraestrutura.
Mas quem ficou com a tecnologia?
Essa é uma das perguntas centrais da corrida brasileira pela IA. O mesmo raciocínio vale para os minerais.
A inteligência artificial depende de uma enorme cadeia industrial que utiliza diferentes matérias-primas. O Brasil possui reservas e produção relevantes de minerais como lítio, níquel, cobre, manganês, grafita e nióbio, além de potencial em terras raras.
Isso coloca o país diante de outra escolha. Podemos continuar exportando matérias-primas e comprando produtos tecnológicos de alto valor produzidos em outros lugares ou tentar avançar dentro dessas cadeias.
Ter minério não significa controlar a tecnologia, se o Brasil extrai o recurso, exporta e depois importa equipamentos fabricados com ele, o maior valor econômico continua sendo criado em outra etapa da cadeia.
É uma velha questão brasileira aparecendo dentro de uma tecnologia extremamente nova.
E existe ainda um recurso que não pode ser colocado na mesma categoria de minério ou energia: a biodiversidade.
A Amazônia tem importância climática, ambiental e científica muito maior do que seu potencial de exploração econômica. Ao mesmo tempo, a região está no centro de interesses relacionados a mineração, energia, biodiversidade e tecnologia.
Por isso, a expansão da IA também coloca uma questão sobre o modelo de desenvolvimento que o Brasil quer seguir.
Existe o risco de o país simplesmente repetir uma lógica antiga com uma tecnologia nova. Durante séculos, o Brasil exportou recursos naturais enquanto boa parte do valor agregado era produzido em outros lugares.
No futuro, poderíamos estar exportando não apenas minério e commodities, mas também energia, água, território e dados para alimentar uma economia de inteligência artificial controlada por empresas estrangeiras.
A tecnologia seria moderna. A relação econômica seria bastante conhecida.
Mas o Brasil também tem condições para tentar fazer algo diferente.
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, o PBIA, prevê R$ 23 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028 e inclui entre seus objetivos ampliar a infraestrutura computacional, desenvolver modelos de linguagem em português e reduzir a dependência tecnológica externa.
O país também possui universidades, pesquisadores e estruturas de computação de alto desempenho, como o supercomputador Santos Dumont, utilizado em centenas de projetos científicos.
Isso não coloca o Brasil automaticamente na mesma categoria dos Estados Unidos ou da China. Mas significa que existe uma base sobre a qual construir. E talvez uma das maiores oportunidades esteja justamente onde o Brasil possui uma vantagem que parece banal: o português.
Uma inteligência artificial utilizada em escolas brasileiras precisa compreender a educação brasileira. Uma ferramenta jurídica precisa conhecer a legislação nacional. Uma aplicação de saúde precisa entender o SUS. Uma IA para agricultura precisa considerar as características do território e da produção brasileira.
Desenvolver modelos e sistemas capazes de compreender essa realidade pode ser muito mais importante do que simplesmente tentar criar um “ChatGPT brasileiro”. Soberania tecnológica não significa necessariamente fabricar tudo, significa ter alternativas e capacidade para não depender completamente de uma única empresa ou de outro país em áreas estratégicas.
Essa discussão também envolve quem define as regras da inteligência artificial. Países do Sul Global têm questionado o papel de simples consumidores de tecnologias desenvolvidas no exterior. A discussão apresentada pelo Rest of World sobre países africanos traz justamente esse ponto: quem utiliza essas tecnologias também precisa participar das decisões sobre segurança, governança e padrões internacionais.
O Brasil tem motivos para fazer a mesma pergunta. Se uma IA for utilizada em serviços públicos, saúde, educação, crédito ou segurança, quem vai avaliar se ela funciona adequadamente para a realidade brasileira?
Há ainda um fator político que pode pesar nessa disputa: as eleições para presidente. Mudanças de governo podem alterar prioridades, investimentos e até a forma como o país se posiciona diante de empresas e interesses estrangeiros. Em uma área estratégica como a inteligência artificial, uma mudança brusca de rumo pode enfraquecer projetos de longo prazo, aumentar a dependência tecnológica ou colocar recursos estratégicos brasileiros sob decisões que não necessariamente priorizem a soberania nacional. O desafio, portanto, não é apenas criar uma política de IA, mas garantir que ela sobreviva às mudanças de governo e seja tratada como uma estratégia de Estado.
Se uma empresa estrangeira controlar uma infraestrutura essencial, o país possui alternativas? Se grandes data centers começarem a consumir volumes cada vez maiores de eletricidade e água, quem decidirá onde eles poderão ser instalados? E, principalmente, quem ficará com os benefícios e quem assumirá os custos?
Talvez seja por isso que a pergunta mais importante não seja “o Brasil vai conseguir criar a IA mais poderosa do mundo?”.
Provavelmente não é essa a disputa que o país precisa vencer. A questão é se o Brasil conseguirá transformar suas vantagens em poder tecnológico.
A energia renovável pode alimentar data centers nacionais. Esses centros podem apoiar universidades e empresas brasileiras. Pesquisadores podem desenvolver aplicações para agricultura, saúde, educação, clima e biodiversidade. Minerais estratégicos podem ser processados dentro do país. Dados brasileiros podem ser utilizados em pesquisas sob regras nacionais.
Nesse cenário, os recursos naturais deixariam de ser apenas combustível para uma tecnologia estrangeira e passariam a fazer parte de uma estratégia de desenvolvimento. E existe uma ironia nisso tudo. O meio ambiente costuma aparecer como um problema para a expansão da inteligência artificial, por causa do consumo de água, energia, minerais e território.
Mas justamente esses recursos podem ser uma das maiores vantagens brasileiras. A biodiversidade pode gerar ciência. A energia renovável pode atrair indústria. Os minerais podem sustentar novas cadeias produtivas. A inteligência artificial pode ser usada para monitorar florestas, incêndios, produção agrícola e mudanças climáticas. O desafio é não transformar essa vantagem em mais um ciclo de exploração.
Então, o Brasil está fora da corrida da IA?
Não exatamente.
Se a corrida for definida como a disputa para criar o modelo mais poderoso do planeta, o país ainda está distante dos líderes.
Mas existe uma disputa muito maior acontecendo ao mesmo tempo. Quem terá os data centers? Quem terá acesso à energia? Quem controlará os dados? Quem produzirá os chips? Quem dominará os minerais estratégicos? Quem definirá as regras? E quem ficará com a maior parte do dinheiro gerado por essa nova economia?
Nessa corrida, o Brasil tem cartas importantes. O problema é que ter cartas não significa saber jogá-las. O país pode se tornar um enorme fornecedor de energia, minerais, território, dados e infraestrutura para empresas estrangeiras.
Ou pode tentar usar justamente essas vantagens para construir conhecimento, empresas, pesquisa e tecnologia própria. A diferença não será decidida apenas nos laboratórios onde os grandes modelos são treinados, ela também será decidida nas usinas, nos rios, nas minas, nas universidades e nas florestas.
Porque a inteligência artificial pode até parecer uma revolução que acontece dentro da tela. Mas, no mundo real, ela precisa de eletricidade, água, minerais, território e gente.
E a pergunta que fica para o Brasil é simples: quando essa corrida ficar ainda maior, queremos controlar parte da tecnologia ou apenas fornecer aquilo que faz a tecnologia funcionar?
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