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Mangá: livro revela como os quadrinhos japoneses acompanharam as transformações do Japão no século 20

O crescimento global do mangá nos últimos anos ajudou a transformar completamente a presença da cultura pop japonesa no Ocidente. Se antes era comum encontrar apenas um pequeno espaço dedicado a esses quadrinhos nas livrarias, hoje há uma oferta enorme de títulos traduzidos, enquanto adaptações em anime ganham cada vez mais destaque nas plataformas de streaming. Nesse contexto, o livro Manga’s First Century: How Creators and Fans Made Japanese Comics, 1905-1989, de Andrea Horbinski, surge como uma obra importante para entender como o mangá se consolidou não apenas como entretenimento, mas também como um reflexo direto das mudanças políticas, sociais e culturais do Japão ao longo do século 20.

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Em vez de reforçar a ideia bastante difundida de que o mangá moderno descende diretamente de uma tradição artística japonesa milenar, Horbinski propõe uma leitura diferente. Para a autora, a forma como conhecemos o mangá hoje nasceu de maneira mais concreta no início dos anos 1900, em um Japão que passava por uma modernização acelerada e absorvia influências estrangeiras, como os cartuns políticos e novos formatos visuais vindos de fora. A partir desse ponto de vista, o mangá seria um produto profundamente moderno, ligado à imprensa de massa, à circulação industrial e também à participação ativa do público em sua evolução.

Essa interpretação ganha força quando o livro volta ao lançamento da revista Tokyo Puck, em 1905, publicação editada por Kitazawa Rakuten. Naquele momento, o termo mangá era defendido por ele como algo associado principalmente à sátira política, mas com o tempo esse uso se expandiu para críticas sociais e outras abordagens narrativas. Horbinski argumenta que muitos artistas que, já a partir dos anos 1920, passaram a buscar origens ancestrais para o mangá estavam na verdade ajudando a alimentar uma visão romantizada do passado japonês. Ainda assim, mesmo para quem não quiser entrar nesse debate mais teórico, o grande mérito do livro está em mostrar como os quadrinhos acompanharam tensões muito reais da sociedade japonesa.

Ao longo da obra, fica claro como o mangá também serviu para expor inquietações sociais da época. Nos anos 1920, por exemplo, o crescimento da independência feminina nas áreas urbanas apareceu em várias histórias sob um olhar carregado de ansiedade masculina. Algumas personagens eram retratadas como vaidosas, gananciosas ou moralmente desviantes, num reflexo das preocupações de uma sociedade que via mudanças rápidas nos costumes. Em paralelo, também surgiam narrativas com forte carga erótica e fantasiosa envolvendo mulheres, enquanto ganhava espaço um clima de desconfiança em relação à influência ocidental, que ia da moda francesa ao cinema americano. O livro mostra como essas tensões acabaram sendo absorvidas pelos quadrinhos no momento em que o mangá infantil começava a crescer de forma decisiva.

Jiji Manga, um suplemento de quadrinhos de Kitazawa Rakuten, 17 de maio de 1926. MeijiShowa/Alamy.

Um dos exemplos mais marcantes citados por Horbinski é Norakuro, considerado o primeiro grande sucesso do mangá voltado para crianças. Criado por Tagawa Suihō e apresentado em 1931, o personagem era um cachorro de rua atrapalhado que integrava um exército imperial japonês formado apenas por cães. A grande inovação da série não estava apenas no humor visual, mas também no uso de recursos do rakugo, forma tradicional de comédia oral japonesa, que trouxe aos quadrinhos um humor baseado em jogos de palavras e ritmo narrativo. Ao mesmo tempo, Norakuro também ajudou a consolidar formas de interação com os leitores, algo que se tornaria essencial no desenvolvimento da indústria. Só que a obra não ficou imune ao contexto político do período e acabou sendo atravessada pelo avanço do militarismo japonês dos anos 1930.

Na segunda metade do livro, o foco se volta para o pós-guerra, quando o mangá entra em uma nova fase e amplia ainda mais sua influência. É nesse momento que aparecem figuras fundamentais como Hasegawa Machiko, criadora de Sazae-san, e Osamu Tezuka, frequentemente chamado de padrinho do mangá moderno. No caso de Sazae-san, a série acompanhava as aventuras domésticas de uma jovem dona de casa e permaneceu relevante por quase três décadas, entre 1946 e 1974. Já Tezuka ajudou a mudar a linguagem da mídia ao defender que o mangá não precisava viver só de humor. Para ele, depois da experiência traumática do militarismo japonês, havia espaço também para a tragédia, o drama e emoções mais complexas dentro das histórias em quadrinhos.

Outro movimento importante abordado por Horbinski é o surgimento do gekiga, estilo mais dramático, violento e cinematográfico voltado principalmente para adolescentes. A autora destaca que foi nesse momento que o mangá passou a ser produzido de maneira ainda mais orientada pelo mercado, o que abriu caminho para histórias mais intensas e nem sempre bem recebidas por pais e setores conservadores da sociedade. A reação veio em forma de campanhas contra os chamados livros ruins, com episódios de queima de publicações em meados dos anos 1950. Ainda assim, a indústria resistiu, impulsionada pela força de seu público jovem e pela explosão da televisão a partir dos anos 1960, que ampliou o alcance dessa cultura de maneira impressionante.

Tezuka também foi peça central nessa expansão para o audiovisual. A partir de 1963, Tetsuwan Atomu, conhecido mundialmente como Astro Boy, abriu caminho para a produção de animes em larga escala e ajudou a moldar práticas industriais que depois se tornariam padrão, inclusive na venda de produtos derivados. Ao mesmo tempo, seu legado também carrega críticas, especialmente por ter colaborado para consolidar condições de trabalho duras e baixos salários na animação japonesa. O livro ainda aponta que, embora ele tenha participado da separação cada vez mais rígida entre mangás voltados para meninos e meninas, foram criadoras como Ikeda Riyoko que deram ao mangá feminino um novo nível de profundidade emocional e realismo. Sua obra The Rose of Versailles, publicada entre 1972 e 1973, teve um impacto tão forte que, segundo relatos da época, alunas chegaram a chorar tanto com o desfecho da história que professores precisaram interromper aulas.

Nos anos 1970 e 1980, o livro mostra ainda como os fãs passaram a exercer influência direta sobre o rumo do mangá. A produção independente já existia, mas ganhou outra dimensão com convenções, crescimento do cosplay e popularização do termo otaku, usado inicialmente de forma crítica para falar de fãs considerados obcecados demais. Com o tempo, essa identidade foi sendo apropriada pelo próprio público. Horbinski encerra sua análise em 1989, ano simbólico por reunir a morte de figuras históricas como Tezuka Osamu, Tagawa Suihō e o imperador Hirohito, além do impacto social causado pelo caso do chamado “assassino otaku”, que reacendeu debates sobre a influência dos quadrinhos e da cultura pop japonesa no comportamento de jovens.

Manga’s First Century parece ir além de uma simples história dos quadrinhos japoneses. O livro usa o mangá como uma janela para observar as contradições do Japão moderno, suas crises, seus medos, suas transformações culturais e a maneira como artistas e leitores participaram juntos da construção de um dos fenômenos mais influentes da cultura pop mundial. E justamente por isso, diante de tudo o que aconteceu depois de 1989, especialmente a expansão global do mangá nas últimas décadas, fica a sensação de que essa história ainda está longe de acabar.

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Fagner Lopes

CEO Presidente e fundador da Obewise Entertainment Network, escritor, biomédico e amante de jogos eletronicos, mais precisamente DOTA 2. Redator do site e artista na Obewise Radio Network.

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